Sobre este espaço

Este é um espaço destinado à reflexões acerca da memória, do tempo e de histórias.. Histórias de vida, histórias inventadas, histórias... Um espaço onde a imaginação possa fluir, viajar. Um espaço também para escrever sobre minhas reflexões referentes aos meus estudos sobre arqueologia e antropologia... Antes de mais nada, uma espécie de Diário daquilo que me impulsiona, um lugar para organizar (ou tentar) meus pensamentos.. antes que eles voem por aí.

Boa exploração!

Roberta Cadaval

sábado, 4 de dezembro de 2010

Um romance etnográfico

Depois de um longo tempo afastada deste espaço singelo, em função de estudos e mais estudos, retorno cheia de inspirações e aspirações! Como ficarei mais alguns dias afastada, deixarei aqui uma sugestão de leitura, que fiz esta semana e que me apaixonei.. continuo apaixonada... Recomendo para lerem nas férias!!!!



PHILIPPE DESCOLA
AS LANÇAS DO CREPÚSCULO
PRÓLOGO E PRIMEIRA PARTE 
(DOMESTICANDO A FLORESTA)

Na primeira parte do livro de Descola, o autor situa-nos entre os índios Achuar e contextualiza essa aventura etnográfica. Este livro, que podemos avocar como um romance etnográfico (pois a narrativa faz com que o leitor participe das atividades como se lá estivesse) envolve o leitor em todos os momentos, causando sensações próximas das que Descola narra ter vivido. As primeiras frustrações em relação à pesquisa, as dificuldades relacionadas à língua e imersão total nos hábitos e costumes de um povo tão diferente do etnólogo.

Inicialmente, o autor situa-nos sobre suas condições iniciais, enquanto etnólogo principiante, e suas aspirações e desejos de desenvolver uma pesquisa na área em que atuou. Primeiramente, ele contextualiza os índios Jivaro, explicando que, segundo etnografias já realizadas nesta região, estes se dividem em 4 tribos: Shuar, Aguaruna, Achuar e Huambisa. Seu objetivo era realizar um estudo sobre uma comunidade que pouco (ou nada) se sabia e, sendo assim, seu foco concentrava-se em uma destas tribos, os Achuar. Dos Achuar só se sabia, na época, que viviam a leste dos Shuar, que eram seus inimigos hereditários e que não cultivavam contatos com brancos. (DESCOLA, 2006. p. 41-42)


Apesar de o livro assumir a forma de um romance, o que ele narra não traz uma visão tão romântica do fazer antropológico. O autor é de fato estimulado pelo espírito aventureiro (o que, talvez, dê ao livro este tom mais romantizado) da busca pelo desconhecido, mas faz questão de transparecer todas as dificuldades e afrontamentos que o pesquisador tem de enfrentar ao pesquisar uma comunidade tão exótica. Primeiramente, o acesso até essas populações. De que forma chegar até elas e estabelecer o primeiro contato/diálogo? Depois do contato inicial, como relacionar-se com estas pessoas? Principalmente no caso dele, em que as informações que obteve (etnografias de pesquisadores que trabalharam com tribos vizinhas, relatos de missionários e viajantes e informações orais da população da cidade de Puyo) sobre estes povos - e esta tribo especificamente - apontavam continuamente para um ponto em comum: uma percepção dos Achuar como violentos, canibais e caçadores de cabeças. Sobre isto, destaco um ponto importante em que Descola transcreve como ‘uma lei implícita da prática etnográfica’;
O abismo irredutível que eu constatava entre o meu saber livresco e racionalista sobre os índios da Amazônia equatoriana e o universo lendário de que os habitantes de Puyo nos falavam tornou-se para mim a primeira ilustração de uma lei implícita da prática etnográfica. Se nos arriscássemos a formulá-la, parodiando a concisão da linguagem da física, ela poderia ser enunciada do seguinte modo: a capacidade de objetivação é inversamente proporcional à distância do objeto observado. Em outros termos, quanto maior o afastamento geográfico e cultural que o etnólogo estabelecer entre o seu ambiente de origem e o “campo” escolhido, tanto menos sensível ele estará aos preconceitos das populações dominantes locais em relação às sociedades marginais que estiver estudando. (DESCOLA, 2006. p. 28)

Com isto, o autor salienta que devemos filtrar as informações que colhemos no campo, acerca do grupo que escolhemos pesquisar, e que este processo torna-se menos complicado quando temos um distanciamento maior entre o meio em que vivemos e o campo que pretendemos estudar[1].


Mais adiante, Descola faz uma reflexão sobre o ofício do etnólogo e nos diz que numa formação voltada para as praticas lúdicas da humanidade, nada prepara o etnógrafo principiante para os episódios de camping desconfortável, somente a prática. Ele ainda nos dias que, o universo do etnólogo é menos o das estepes e matas virgens do que o das salas de aula, leituras e enfrentamentos com páginas em branco. Em seguida, o autor revela-nos sua trajetória - a qual acompanhamos com grande expectativa. Este momento do livro é bastante interessante, porque nos aproxima, enquanto principiantes, dos anseios e perspectivas de Descola, também principiante até então. Estimulado por Maurice Godelier e orientado por Claude Lévi-Strauss, Philippe Descola parte rumo ao desconhecido em meio à mata virgem da Amazônia equatoriana. E nós, leitores, o acompanhamos neste ousado passo, e não perdemos o avanço de seu trabalho.


Uma questão importante, destacada pelo autor, é sobre as divergências teóricas que existem, no campo da antropologia, entre diferentes escolas desta disciplina. Segundo ele, nesta carreira somos identificados pelo povo que estudamos e as afinidades intelectuais nascem muitas vezes da cumplicidade que existe devido à experiências etnográficas análogas. E mais, é raro que um pesquisador escolha uma região a ser estudada simplesmente ao acaso.  Cada região do mundo e cada tipo de sociedade suscita vocações especificas de acordo com o caráter de cada um, tipologia sutil que a própria pratica de campo se encarrega de fortalecer. (Descolas, 2006. p. 48) E assim, segundo este autor, os conflitos entre as escolas antropológicas representam, muitas vezes, uma incompreensão mútua entre divergências teóricas e diferentes estilos de se relacionar, que escondem incompatibilidades mais fundamentais nos modos de estar no mundo[2].


Ao adentrar no universo Achuar, Descola capitula suas primeiras descrições e interpretações em 9 partes: aprendizados, amanhecer, rumores de aldeia, tempo de parada - reflexão, comércios, roças, sonhos, caçadas e águas. Começando pelos aprendizados, o autor narra a experiência que viveu nos primeiros dias na aldeia. Acolhido por uma família Achuar, ele e sua esposa Anne Christine (para quem ele dedica este livro), aos poucos, foram deparando-se com a dificuldade na comunicação e com isso apareceram às primeiras frustrações. Este tipo de pesquisa não traz resultados simples e rápidos, é necessário paciência e dedicação do pesquisador. Nesta parte do livro, é muito interessante o percurso que o leitor viaja. Nas páginas de Descola, fazemos uma imersão nos hábitos e modos de viver dos Achuar, pois o autor vai para além de uma descrição do visível, ele traduz essas descrições de acordo com suas interpretações pautadas no próprio modo de pensar Achuar. E com brilhantismo e humildade, o autor expõe seu desejo de retornar para o aconchego de sua casa, fixando que, o que o ajudou a mantê-lo envolvido com seu objetivo, foi a presença de sua companheira, fiel até o fim da pesquisa. Ao aprendermos sobre cada espírito que acompanha as atividades achuar, suas relações de parentesco, simbologias e significados e chegamos finalmente à metáfora feita com o espelho de Alice, ao fim da parte 1 do livro, e verificamos, nas entrelinhas, o conselho de Lévi-Strauss dado para Descola: “Deixe-se levar pelo campo”. Nos primeiros contatos, Descola sentiu haver fracassado em seu papel de etnógrafo, enquanto que seu informante indígena cumpria bem a sua parte. Porém, isto demonstrou apenas uma realidade intrínseca do fazer antropológico: a necessidade de o pesquisador ter paciência e dedicação. Provavelmente, não é no primeiro contato que se estabelecem as primeiras percepções descritivas e interpretativas. As informações sobre um mito importante - que Descola pensava estar ‘perdendo’ por não compreender e não conseguir gravar - voltariam a tona em outro momento. Em um momento em que ele estaria mais bem preparado para compreender também.
Assim, deixando-se levar pelo campo e deixando o leitor envolver-se por este campo, ele termina a primeira parte solucionando um enigma que pensava haver perdido lá no inicio! Informações estas, que não aparecem de imediato, e só confirmam a importância de imergir totalmente na cultura a ser estudada.
Por fim, Descola traz-nos uma reflexão acerca dos dados etnográficos – que para ele, são qualquer coisa menos um saber constituído - e da etnografia versus etnologia, que, para o autor, a primeira refere-se ao registro e interpretação, enquanto que a segunda se esforça em trazer a luz princípios que regem o funcionamento dos diferentes sistemas identificáveis por hipóteses no seio de cada sociedade (sistemas políticos, econômicos, de parentesco), abrindo assim o caminho para a comparação com outras culturas.

Foto retirada do site http://www.achuarperu.org/


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
DESCOLA, Philippe. As lanças do crepúsculo. São Paulo: Cosac Naify, 2006.

[1] Acredito que seja importante analisar e descrever esse tipo de informação, ou mito, que são repassados através da História Oral, mas isto, para um estudo que seja desenvolvido sobre a comunidade em questão. No caso de a comunidade pesquisada ser a própria “Legião Estrangeira” (como Descola vem a chamar este mito) penso ser necessário levar em consideração, é claro, todas essas informações, mas com cuidado para não deixar se envolver demais por ela.
[2] Eu diria mais, “incompatibilidades mais fundamentais nos modos de ser e estar no mundo.”

sábado, 21 de agosto de 2010

A verdade sobre o tempo


Pato Fu
A verdade sobre o tempo
Composição: John Ulhoa

Ele pensa que a vida ficou pra trás
Então finge que nem liga que tanto faz
Ou não, ou não, a vida é como um gás
Só um sopro, só um vento, nada mais
E o ar que já lhe passou pelos pulmões
De tão velho já quer ir descansar
Daqui pro futuro falta só um piscar
Que é pro tempo não mais nos enganar
Ele agora vê que o tempo é uma ilusão
E o passado são as linhas em suas mãos
Ou não, ou não, a vida é muito mais
Que os dias, que os deuses, que jornais
E o ar que já lhe passou pelos pulmões
De tão velho já quer ir descansar
Daqui pro futuro falta só um piscar
Que é pro tempo não mais nos enganar
Ou não, ou não, a vida é como um gás
Só um sopro, só um vento, nada mais

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O que fica é saudade

Para o meu pai, Eroci Cadaval

O que fica é saudade.
É vazio, é vontade.
É o espaço do teu amor, da lembrança.
A memória brilhante daquilo que vivenciei ao teu lado.
Tua sabedoria me ensinou a verdade.
Tuas mãos me mostraram a beleza.
Teus passos, luz.
Sou o que sou por ter sido guiada, preparada.
Conduzida a te ensinar, a aprender contigo.
A trocar.
O toque.
O amor que não se vê.
Só se sente.
Na memória, no coração.
Impresso na alma.
O que fica... é saudade.

Roberta de Souza Cadaval

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Chimamanda Adichie: o perigo de uma história única

Nossas vidas, nossas culturas são compostas de muitas histórias sobrepostas. 
A escritora Chimamanda Adichie conta a história de como ela encontrou sua autêntica voz cultural - e adverte-nos que se ouvimos somente uma única história sobre uma outra pessoa ou país, corremos o risco de gerar grandes mal-entendidos. (Traduzido para o Português (Brasil) por Erika Barbosa
 
 
Postado por Teresa Lenzi no blog: Histórias de vidas vividas!

terça-feira, 6 de julho de 2010

Envelhecer - sobre o processo de envelhecimento

Estava pesquisando uns livros da Simone de Beauvoir, sobre a velhice, e encontrei esta matéria na revista digital Partes... achei algumas questões interessantes e resolvi colocar aqui, para facilitar a consulta e para os interessados na temática. Quem quiser conferir no site de origem basta clicar aqui!
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Envelhecer com dignidade
Fátima Teixeira
 
A poucos dias, num programa de televisão participavam algumas pessoas, entre elas uma atriz que revelou estar com mais de 70 anos e uma jovem modelo de 20 e poucos anos.

A atriz, além de talentosa, mantém uma aparência conservada não demonstrando a idade real. A modelo, por sua vez, preenche todos os quesitos que definem os padrões de beleza para a sociedade atual.

Por vários momentos a atriz, de forma bem humorada, fez referência à sua própria condição como alguém que envelheceu e já não apresenta mais a sedução como arma feminina, colocando-se em franca desvantagem frente a beleza exuberante da modelo. Num determinado ponto da entrevista a atriz, sem esconder um certo tom de desprezo e ressentimento, expressou: "A velhice é indigna". Esta frase, com um forte componente negativo a respeito da velhice, nos instiga a refletir sobre a forma como foi construída a identidade do velho em nosso país. Toda a dificuldade, principalmente da mulher em enfrentar essa fase da vida, foi gerada por um padrão cultural de beleza poderosamente cruel. 

Até a década de 70, o Brasil foi considerado um país de jovens. Nessa ocasião, as próprias características demográficas da população brasileira foram utilizadas pela ideologia do regime político vigente, para reforçar a idéia discriminatória em relação ao velho. Assim, a imagem da velhice, presente no imaginário das pessoas em geral, foi se impregnando de valores estigmatizadores, nos quais foram evidenciados os aspectos negativos do envelhecimento, tendo como parâmetro a imagem do jovem. Desta forma, a doença, a inatividade, o abandono, as rugas, a flacidez do corpo, a solidão, são algumas das características que definem o "ser velho". As qualidades opostas a estas foram creditadas como bonificações pertencentes aos jovens.

Ocorre, que o sentimento de juventude permanece no íntimo das pessoas e as mudanças na aparência, que vão se operando ao longo do tempo, passam despercebidas para o indivíduo. É o olhar do outro que dá a exata dimensão da passagem dos anos e Simone de Beauvoir retratou na seguinte frase: "O indivíduo idoso sente-se velho através do outro, sem ter experimentado sérias mutações; interiormente não adere à etiqueta que se cola à ele: não sabe mais quem é". (Beauvoir, 1990:358)

Evidentemente envelhecer significa passar por perdas decorrentes, principalmente, de mudanças na aparência física. Cabelos embranquecidos, diminuição da acuidade visual e auditiva, a formação de gorduras localizadas, especialmente nas mulheres, são alguns sinais facilmente percebidos e estão associados à idéia de desgaste e enfraquecimento. Essas mudanças, próprias da velhice, não são consideradas doenças pelos geriatras e gerontólogos, porém interferem na auto estima do idoso podendo gerar problemas como depressão.

No entanto, envelhecer pode significar aquisições que só podem ser obtidas por meio do acúmulo de experiências vividas no decorrer dos anos. O envelhecimento, por ser um processo natural do ciclo da vida, pode ser atravessado com dignidade e prazer porque ele expressa a forma como vivemos as etapas anteriores. É importante entender que as perdas não ocorrem apenas na velhice, mas em todas as fases, do nascimento ao fim da vida. A nossa sociedade valoriza a juventude e reserva à velhice somente o déficit, a falta de expectativas fazendo com que o próprio idoso desista dos seus projetos de futuro. 

Atualmente, o conceito de velhice vem passando por transformações e, embora de maneira lenta, vem estabelecendo uma nova relação da nossa cultura com o envelhecimento.

O aumento do número de velhos, no âmbito da população em geral, vem trazendo uma visibilidade social e gerando uma nova demanda de preocupações e interesses sociais. Podemos citar algumas iniciativas, tanto do poder público quanto da sociedade civil, na formulação de programas e projetos dirigidos aos maiores de 60 anos. Trata-se de espaços que ajudam na ampliação das relações sociais, dando ao idoso a oportunidade de desenvolver, tanto a sociabilidade como algumas potencialidades que lhe dá uma melhor qualidade de vida. 

A participação dos idosos em diferentes atividades, além de fortalecer laços de amizade fora do contexto familiar, abre a perspectiva de novas e enriquecedoras experiências. Colaboram ainda para a formação de uma nova mentalidade a respeito da velhice que deverá influenciar as gerações futuras.

A prática da dança se aplica como exemplo de uma atividade importante para propiciar o bem estar do idoso. O movimento provocado pelo exercício corporal tem se mostrado bastante eficiente para melhorar alguns problemas de saúde, mas sempre com recomendação médica e acompanhamento de profissional responsável. A dança, também facilita ao idoso se liberar, se expressar através do corpo e demonstrar que, apesar do avanço da idade, é possível viver de forma prazerosa e feliz.

Bibliografia:
BEAUVOIR, Simone de. A Velhice. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1990.
MESSY, Jch. A Pessoa Idosa Não Existe: uma abordagem psicanalítica da velhice. São Paulo, Editora Aleph, 1993.

I Fórum Internacional da Temática Indígena


Fazia tempo que não vinha postar no blog.. andava em fim de semestre, estudando bastante m função dos prazos de provas e trabalhos para entregar. Ufa, no fim deu tudo certo e cá estou eu! 
Nos dias 27 à 30 de junho estive em Porto Alegre com as minhas colegas e companheiras de estudo, Aline e Thamara. Fomos participar do I Fórum Internacional da Temática Indígena. Foi muito bom.
Dentre todos os acontecimentos, gostaria de destacar a presença da Profª Drª Márcia Bezerra, do Coral Mbyá-Guarani da Aldeia do Cantagalo e as falas dos índios Bruno Ferreira, Zaqueu Key Claudino e Vherá Poty.
No dia em que os índios aqui citados falaram, fiz uma postagem no outro blog (Colcha de retalhos).. Quem quiser conferir é só clicar aqui: Sobre as coisas simples de que falo
Claro que, dentre todas as coisas maravilhosas que disseram, destaquei o que é relacionado aos 'velhos' e os modos de vida distintos de ambas as culturas (indígenas e não-indígenas)..
Compartilho com vocês, algumas das frases que mais mexeram comigo..

"Os nossos velhos são os detentores da nossa tradição. Eles são a nossa biblioteca." 
(Zaqueu Key Claudino)

"Os nossos velhos são os verdadeiros sábios da nossa vida. Através deles que a gente não se perde nessa dificuldade que a vida é."

"A mesa não fala. A mesa te tranca. Mas as pessoas não. As pessoas não te fazem apenas ver, mas viver."
(Vherá Poty)

O Bruno participou ativamente de todas as palestras, manifestou todas as suas dúvidas, inquietações e reflexões. De forma brilhante ele relatou um pouco da sua experiência na cidade.. e dentre essas histórias, destaco uma para compartilhar aqui...
"Eu estava com meu amigo e achamos algumas moças bonitas.. fomos falar com elas e elas nos perguntaram 'O que vocês são?' ... Então meu amigo lhes respondeu: 'Somos gente!"

Sem palavras... claro que são gente.. como nós!
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Essa experiencia me cutucou a pensar em algumas coisas... como questões que referem-se à história oficial da América e a forma como é ensinada nas escolas (como se refere aos índios). A todos aqueles que tem ou tiveram como objetivo interferir nos modos de vida dos índios...

Porquê tentar interferir na vida deles ao invés de fazermos um processo inverso?

Quanto aos velhos, por exemplo.. a aceleração e ansiedade, características no estilo de vida em que vivemos, reflete na vida dos velhos de forma tão negativa. Causam infelicidade, frustração os transformando em 'coisas' obsoletas. 
E ainda achamos que podemos ou devemos transformar ou julgar o modo de vida dos indígenas?
Sim, são culturas diferentes, portanto não devemos comparar... mas é inevitável a comparação.
Fico admirada em observar a forma como eles, os índios, tratam seus velhos. 
E perplexa por perceber, através da forma como os indígenas se relacionam com isso, como nós "coisificamos" os nossos velhos... gente como a gente - àqueles a quem deveríamos ter muito respeito.

Deixo aqui apenas um desabafo e mais uma vez um convite a reflexão...
Vamos repensar as formas como nos relacionamos com o mundo a nossa volta.. e fazer pequeno para transformar essa realidade... quem sabe então, aprender com os índios?!

 Apresentação do Coral Mbyá-Guarani da Aldeia do Cantagalo.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Sobre a produção de "Diários"

Um dos processos mais importantes para o pesquisador, ao realizar uma pesquisa, ao meu ver, é a produção de Diários. No diário de pesquisa anotamos tudo aquilo que consideramos relevante, mesmo que não utilizemos essas informações posteriormente. Porém, esse processo faz parte de uma construção essencial para o crescimento e amadurecimento do pesquisador, além de auxiliar na retomada de questões e no foco da questão...
Eu produzo diários desde sempre. Diários que, podemos dizer.. quase que filosóficos, sobre minhas inquietações constantes e efêmeras. Durante o período em que fiz minha graduação em Artes, utilizei diários de pesquisa, diários de bordo.
Papéis e mais papéis, porém papéis que falam muito de mim e daquilo que acredito.
Me recordo de escutar inúmeras vezes a Teresa (minha professora, orientadora e hoje grande amiga) dizendo "Me desfaço de roupas e objetos, mas de meus papéis, cadernos, agendas, diários e qualquer tipo de anotações, jamais!"
Nos papéis estão guardados tudo aquilo que o pensamento e a memória já não comportam mais...
Fragmentos...
 - Fotografia do meu atual diário de pesquisa -

Aproveito para deixar uma reflexão do Rubem Alves (para variar.. hehe) sobre essa questão...
Boa viagem!
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"Os livros que mais me falam são os diários. Diários são registros de experiências comuns acontecidas na simplicidade do cotidiano, experiências que provavelmente nunca se transformariam em livros. Não foram registradas para serem dadas ao público. Quem as registrou, as registrou para si mesmo - como se desejasse capturar um momento efêmero que, se não fosse registrado, se perderia em meio à avalanche de banalidades que nos enrola e nos leva de roldão. Esse é o caso do Cadernos da Juventude, de Camus, um dos livros que mais amo, e que leio e releio sem nunca me cansar. Um “diário” é uma tentativa de preservar para a eternidade o que não passou de um momento. Álbuns de retratos da intimidade. Pois eu fiz um “Diário”: pensamentos breves que pensei ao correr da vida e dos quais não me esqueci. Pensamentos são como pássaros que vêm quando querem e pousam em nosso ombro. Não, eles não vêm quando os chamamos. Ele vêm quando desejam vir. E se não os registramos eles voam, para nunca mais. Isso acontece com todo mundo. Só que as pessoas, achando que a literatura se faz com pássaros grandes e extraordinários, tucanos e pavões, não ligam para as curruiras e tico-ticos... Mas é precisamente com curruiras e tico-ticos que a vida é feita. Assim, em cada página há também um espaço em branco para que o leitor registre também os seus seus tico-ticos e curruiras... Pensando num título escolhi O Poema nosso de cada dia..., em contraponto ao “pão nosso de cada dia” da oração de Jesus. Porque não vivemos só de pão; vivemos também de poemas. Quem se alimenta só de pão engorda e fica pesado. Quem se alimenta de poemas fica leve e ganha asas... O pré-lançamento do meu “Diário” vai ser parte da celebração dos 20 anos de existência do Estúdio Paulo Branco. Tinha de ser... Pois foi o Paulo Branco, artista maravilhoso, que colocou desenhos em cada página do “Diário”. Assim, eu com a palavra, o Paulo Branco com os desenhos, e a Papirus com a realização editorial, estamos todos juntos. Pré-lançamento hoje, dia 08 de dezembro, domingo, às 16 horas, rua Orlando Carpino, 149, Castelo, fone 3241.3823. Lançamento amanhã, às 19 horas, na FNAC, shopping center D. Pedro." (Rubem Alves)

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Reflexão sobre diários feita pela Lidi em seu blog: Desenhar é preciso: Produção de diários e sketchbooks

Reflexão sobre diários (neste caso, sobre os diários da Susan Sontag!) feita pela Sheila em seu blog: Antes que eu me esqueça: Diários

Exercício de observação - Diário etnográfico...


Por oposição aos gerontologistas, que analisam a velhice como um processo biológico, eu estou interessado na velhice como um acontecimento estético. A velhice tem a sua beleza, que é a beleza do crepúsculo. A juventude eterna, que é o padrão estético dominante em nossa sociedade, pertence à estética das manhãs. As manhãs têm uma beleza única, que lhes é própria. Mas o crepúsculo tem um outro tipo de beleza, totalmente diferente da beleza das manhãs. A beleza do crepúsculo é tranquila, silenciosa – talvez solitária. No crepúsculo tomamos consciência do tempo. Nas manhãs o céu é como um mar azul, imóvel. No crepúsculos as cores se põem em movimento: o azul vira verde, o verde vira amarelo, a amarelo vira abóbora, o abóbora vira vermelho, o vermelho vira roxo – tudo rapidamente. Ao sentir a passagem do tempo nós apercebemos que é preciso viver o momento intensamente. Tempus fugit – o tempo foge – portanto, carpe diem – colha o dia. No crepúsculo sabemos que a noite está chegando. Na velhice sabemos que a morte está chegando. E isso nos torna mais sábios e nos faz degustar cada momento como uma alegria única. Quem sabe que está vivendo a despedida olha para a vida com olhos mais ternos...
Rubem Alves
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Esta atividade foi desenvolvida no primeiro semestre de 2010, como exercício de obervação para a disciplina de Antropologia (do curso que faço, Arqueologia - Bacharelado). Como me interesso pelos processos de envelhecimento, resolvi fazer no asilo de pobres da cidade de Rio Grande... e resolvi então compartilhar esta experiência - que foi bastante intensa e determinante para a minha trajetória enquanto pesquisadora.
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10 de maio de 2010
Segunda-feira, três horas da tarde, chove bastante. Entrei no asilo pela porta lateral, situada na Rua João Alfredo. Conversei com um senhor que estava na portaria e este me encaminhou à secretaria. Ao me dirigir até lá, fui percebendo o ambiente: um prédio antigo, escuro e com muitos velhinhos caminhando pelos corredores, sentados nos sofás. Muitas portas abertas e dentro das peças umas cinco camas aproximadamente. Cheguei à secretária e aguardei uns minutos para ser atendida. Conversei com uma moça, funcionária do asilo, sobre a possibilidade de realizar o trabalho, e falei sobre o interesse em conversar com um responsável pelo lugar e também entrar com contato com os idosos, moradores do local. A funcionária me disse que é difícil encontrar o responsável pelo local, mas que anotaria meu telefone e me ligaria assim que falasse com ele, mas que, com os velhos, eu poderia conversar, nos horários entre 15h30 e 17h30. Sendo assim, parti rumo aos corredores à procura de alguém para conversar... Observei que em cada quarto, as aberturas das portas são grandes e que, na parte superior, todas têm fixado uma placa antiga que consta um número e um ‘nome’ (por exemplo: “5. Theodósio da Silva”). Pelos corredores, alguns sofás, próximo à secretaria, uma sala de ‘TV’. Segui caminhando e parei em uma porta à minha esquerda, onde encontrava-se uma velha senhora sentadinha, lendo um folder ou um pequeno livrinho. Perguntei a ela se poderia conversar e ela, muito simpática, disse que sim, me convidou a entrar e sentar. Me apresentei e logo iniciamos a conversa. Dona Zeni, é natural de Pelotas e reside no asilo à cerca de um ano. Antes de se mudar para o asilo, morou durante 7 anos na Vila da Quinta (bairro de Rio Grande) e relatou com tristeza que sente muita falta do lugar e dos amigos que lá vivem. Ao ser questionada quanto à gostar ou não de viver onde está atualmente, ela respondeu com simplicidade e um pouco de tristeza: “Gosto daqui, gosto das pessoas, me dou bem com todo mundo. Quando acho que não vou me dar bem, eu me afasto da pessoa.” Esta senhora, que no seu olhar transparecia um misto de tristeza e felicidade, foi levada por seu irmão para residir no asilo. De família muito católica, sente falta de ir à missa e às outras atividades da Igreja Católica, e afirma que a forma que encontrou de manter mais próxima ‘de Deus’ na sua atual condição, é ler a Bíblia todos os dias. Há um padre que ‘às vezes’ vai até o salão do local e realiza uma missa, mas o inconveniente, segundo Dona Zeni, é que o horário da missa coincide com o horário do almoço, desta forma se ela vai à missa, perde uma refeição importante (que não é servida depois). O asilo oferece as principais refeições, café da manhã, almoço, café da tarde e janta, mas é em horários específicos e os moradores precisam estar disponíveis de acordo com a organização. Quanto à sua rotina, o tempo é vago e eles tentam preenchê-lo com leituras, conversas e contato com outros moradores. Tem uma sala de TV, onde todos tem acesso livre. Podem ir até o pátio, mas não passar dos portões desacompanhados. Para passear pela cidade é necessário que estejam acompanhados de um familiar ou alguém conhecido. Dona Zeni me contou um pouco sobre a sua vida, falando muito de um tempo em que foi funcionária de um asilo em Pelotas. Senti que ela aceita a condiçlão de estar lá, mas não se sente feliz... Ao me despedir, agradeci a ela por sua dedicação e ela me abraçou muito feliz, dizendo: “Aparece para conversar comigo mais vezes.”
Quando ia saindo, apareceu uma senhora que divide o quarto com Dona Zenir me pedindo para visitar o quarto ao lado, pois lá tinha ‘uma menina’ que queria conversar comigo. Me encaminhou até lá e me deparei com uma situação diferente da anterior. No quarto tinham mais senhoras, um lugar um pouco bagunçado e mais escuro. Numa cadeira de rodas, havia uma senhora com bastante idade que me olhou e disse: “Senta aqui (apontando para a cama) que eu quero saber da tua vida!” Muito simpática, cheia de histórias para contar, Dona Victoria é natural de Santa Maria e descendente de Árabes. Ela relatou que seu pai era árabe e que com os pais conversava um pouco na língua. Disse que hoje já não se lembra de nada porque não tem com quem conversar no idioma. Ela lê bastante para, segundo ela, manter a cabeça constantemente funcionando. Inicialmente ela falava com bastante empolgação sobre o asilo, falando das festas que elas fazem, que as amigas são muito bacanas, os funcionários do lugar e tudo o mais. Em alguns momentos era difícil compreender o que ela dizia, pois falava baixinho e tinham outras pessoas que falavam mais alto no quarto. Então ela se emocionava dizendo: “Papai não deixou eu estudar. Depois me casei e meu marido não me deixou trabalhar. Gostaria que tivesse sido diferente, sempre me interessei pelos estudos da natureza. Gostaria de entender como funciona a terra, como ela dá os frutos, coloridos, de diferentes formatos. É tão lindo de ver. Se eu tivesse estudado e tido uma profissão, eu não estaria aqui hoje.” E ela dizia repetidas vezes a seguinte frase: “A terra nos cria, a terra nos come”. Dona Victoria já vive lá há mais tempo que Dona Zeni, porém ela não soube me precisar uma data. Viúva há alguns anos, foi levada para o asilo por sua filha que reside no Cassino. A filha a visita poucas vezes, pois, segundo a senhora, ‘tem pouco tempo, trabalha demais.’ O filho, mora na Bahia, é casado e tem duas filhas, os quais ela não tem contato constante devido a distância. Ela aguarda um telefonema do filho... e pede a Deus que o rapaz mande notícias. Ela tem muita fé e também é católica. Me disse inúmeras vezes para me agarrar a Deus e nele confiar. Além da leitura, ela disse que constantemente se faz perguntas sobre tudo, para ativar a memória. Dona Victória não sai nem para passear, pois tem problemas nas pernas. Depois de falar muito sobre ela, disse que queria saber da minha vida. Perguntou se eu era casada e se tinha filhos. Recomendou-me ‘encomendar’ uma ‘guriazinha’, pois disse que uma guriazinha é muito bom! Perguntou o que era “Arqueologia e Antropologia” e gostou muito da minha explicação. E sua última pergunta, que me deixou um pouco aflita, foi esta: “Como é a vida lá fora? Como são as pessoas?”
Diante desta pergunta me senti um pouco atônita e confesso que de imediato não soube como responder. Inúmeras sensações me causaram um certo desconforto, tristeza, frustração... Eu pensava: “Estou aqui, realizando um trabalho, para uma disciplina do curso que estou estudando. Ou seja, este momento é uma parcela pequena da minha vida, de tudo o que faço. Enquanto que para ela, aquele momento era muito importante, um contato com o mundo externo. Aquele momento era a vida dela em sua totalidade. Seu mundo se resumia aquele lugar.” Logo, pensei eu a forma de responder traçando um paralelo de como era quando ela estava lá fora. Hoje as pessoas não tem tempo para nada, correm freneticamente para todos os lados e apontam para todas as direções. É difícil encontrar famílias ou pessoas que mantêm uma vida equilibrada, com tempo para trabalhar, para se dedicar à família e ter momentos de lazer tranqüilamente.
Por fim, tive que interromper a conversa, pois aproximava-se das 17h30 e o horário de visita chegava ao fim. Como Dona Zeni, Dona Victória me pediu para voltar. Abracei-a e disse que retornaria com algum livro ou revista, levando informações sobre ‘o mundo’ para ela. Me agradeceu muito e então parti.
Sai pela porta lateral do asilo (a mesma em que entrei). Já não chovia tanto, mas ventava e estava frio. Eu só pensava na condição daquelas pessoas, dependendo de outros para que sua felicidade fosse um pouco maior.
Quanto ao prédio, ainda não obtive informações pois não recebi o contato do vice-presidente – segundo a funcionária que me recebeu, ele é a pessoa que poderia me autorizar a fazer uma investigação maior e me fornecer as informações sobre o funcionamento do lugar e me indicar pessoas para conversar. Desta forma, tive um primeiro contato superficial com o lugar, mas um contato profundo com as pessoas com quem estive. Acredito que pela ‘solidão’ em que se encontram, mesmo em um lugar bastante povoado, cada contato que estabelecem com alguém disposto a lhes ouvir, é muito intenso. Neste momento, é difícil manter uma postura de oposição aos sentimentos, é difícil não se envolver com os pesquisados. Portanto, fiz algumas breves anotações no lugar mesmo, mas esperei para refletir e escrever sobre esta experiência um dia depois, para não ser fortemente influenciada pelos sentimentos que me encobriam ao sair do lugar. Por fim, deixo uma pequena reflexão escrita por Paulo Coelho sobre a velhice...

Ana Cintra conta que seu filho pequeno,
com a curiosidade de quem ouviu uma nova palavra,
mas ainda não entendeu seu significado, perguntou-lhe:
"Mamãe, o que é velhice? "

Na fração de segundo antes da resposta,
Ana fez uma verdadeira viagem ao passado.
Lembrou-se dos momentos de luta, das dificuldades, das decepções.
Sentiu todo o peso da idade e da responsabilidade em seus ombros.
Tornou a olhar para o filho, que, sorrindo, aguardava uma resposta.

"Olhe para o meu rosto, filho" , disse ela.
"Isto é a velhice".

E imaginou o garoto vendo as rugas e a tristeza em seus olhos.
Qual não foi sua surpresa quando,
depois de alguns instantes, o menino respondeu:
"Mamãe! Como a velhice é bonita!"
Paulo Coelho

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Escrevendo a vida

terça-feira, 20 de abril de 2010

O tempo se mede com batidas

O tempo se mede com batidas. Pode ser medido com as batidas de um relógio ou pode ser medido com as batidas do coração. Os gregos, mais sensíveis do que nós, tinham duas palavras diferentes para indicar esses dois tempos. Ao tempo que se mede com as batidas do relógio – embora eles não tivessem relógios como os nossos – eles davam o nome de chronos. Daí a palavra “cronômetro”.
O pêndulo do relógio oscila numa absoluta indiferença à vida. Com suas batidas vai dividindo o tempo em pedaços iguais: horas, minutos, segundos. A cada quarto de hora soa o mesmo carrilhão, indiferente à vida e à morte, ao riso e ao choro. Agora os cronômetros partem o tempo em fatias ainda menores, que o corpo é incapaz de perceber. Centésimos de segundo: que posso sentir num centésimo de segundo?
Que posso viver num centésimo de segundo? Diz Ricardo Reis, no seu poema “Mestre, são plácidas” (que todo dia rezo): “Não há tristezas nem alegrias na nossa vida”. Estranho que ele diga isso. Mas diz certo: o tempo do relógio é indiferente às tristezas e alegrias.
Há, entretanto, o tempo que se mede com as batidas do coração. Ao coração falta a precisão dos cronômetros. Suas batidas dançam ao ritmo da vida – e da morte. Por vezes tranqüilo, de repente se agita, tocado pelo medo ou pelo amor. Dá saltos. Tropeça.
Trina. Retoma à rotina. A esse tempo de vida os gregos davam o nome de kairós – para o qual não temos correspondente: nossa civilização tem palavras para dizer o tempo dos relógios: a ciência. Mas perdeu as palavras para dizer o tempo do coração.
Chronos é um tempo sem surpresas: a próxima música do carrilhão do relógio de parede acontecerá no exato segundo previsto. Kairós, ao contrário, vive de surpresas. Nunca se sabe quando sua música vai soar.

Rubem Alves in “O AMOR QUE ACENDE A LUA
– Um caso de amor com a vida”


quinta-feira, 15 de abril de 2010

Etérea.

Desenho: Lidiane Dutra

Esta foi uma homenagem que a Lidi fez pra mim. Aproveito para agradecê-la por ter me escolhido como fonte para um de seus estudos gráficos e para deixar registrado que adorei o resultado! Transcende a minha pessoa! Segundo ela, o nome do desenho é "Roberta etérea"...
Recomendo que leiam o blog dela, está muito bom. 
Aborda várias questões interessantes, lá você encontrará dicas de livros, endereços eletrônicos e principalmente questões relacionadas à arte, filosofia e desenho (seja ele confeccionado pela luz ou pela mão humana!).
Cliquem aqui e confiram!

Abraços etéreos a todos!!

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Lembranças de velhos*



Quando assisti esse vídeo pela primeira vez, lembrei-me diretamente de um livro que gosto muito, "Memória e Sociedade: Lembranças de velhos", da *Ecléa Bosi. Recordei um trecho em particular e o qual gostaria de compartilhar...

'A criança recebe do passado não só os dados da história escrita; mergulha suas raízes na história vivida, ou melhor, sobrevivida, das pessoas de idade que tomaram parte na sua socialização. Sem estas haveria apenas uma competência abstrata par lifar com os dados do passado, mas não a memória.
'

Quem, na sua infância, nunca passou horas sentado ao lado do avô ou da avó ouvindo longas histórias... histórias da infância deles, dos tempos de mocidade, e muitas coisas mais? E como sabiam contar histórias... sabiam de todas as coisas! E quando falavam coisas que não entendíamos.. não é que eles estavam certos??
É incrível a quantidade de informações que podemos extrair a partir do relato de "um velho". E ao mesmo tempo, como é maluco pensar que o tempo em que eles viveram seja tão diferente do nosso.. os hábitos, os costumes.. mesmo que seja o mesmo lugar.
Eu tive a oportunidade de conhecer apenas uma avó (a avó materna) e infelizmente ela partiu quando eu tinha 5 anos de idade. Depois, restaram as lembranças, as fotografias e a saudade. Sei que 5 anos é um tempo muito curto, mas o suficiente para deixar grandes marcas dentro de mim. Talvez seja por ela que, hoje, eu tenha tanto interesse em entender a época e o lugar em que ela vivia..

Bom, fico por aqui deixando mais um trechinho do livro da Ecléa, e com ele, um convite à reflexão...

'O narrador é um mestre do ofício que conhece seu mister: ele tem o dom do conselho. A ele foi dado abranger uma vida inteira. Seu talento de narrar lhe vem da experiência; sua lição, ele extraiu da própria dor; sua dignidade é a de contá-la até o fim, sem medo.
Uma atmosfera sagrada circunda o narrador.'

Bibliografia:
BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: Lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

domingo, 28 de março de 2010

Sobre os NACIREMA

Eu sei que, para ser inserido a um blog, pode parecer um pouco extenso demais o texto que postei abaixo. Mas o texto traz uma discussão ótima, além de ser maravilhoso.. vale muito a pena fazer uma reflexão sobre ele! O texto foi trabalhado na última aula de Antropologia, enquanto discutíamos conceitos de 'cultura, etnocentrismo e relativização'. E foi pra fechar com chave de ouro! Após a leitura, comente... Afinal, para você, quem são os Nacirema?

Ritos corporais entre os Nacirema *

O antropólogo está tão familiarizado com a diversidade das formas de comportamento que diferentes povos apresentam em situações semelhantes, que é incapaz de surpreender-se mesmo em face dos costumes mais exóticos. De fato, se nem todas as as combinações logicamente possíveis de comportamento foram ainda descobertas, o antropólogo bem pode conjeturar que elas devam existir em alguma tribo ainda não descrita.
 
Deste ponto de vista, as crenças e práticas mágicas dos Nacirema apresentam aspectos tão inusitados que parece apropriado descrevê-los como exemplo dos extremos a que pode chegar o comportamento humano. Foi o Professor Linton, em 1936, o primeiro a chamar a atenção dos antropólogos para os rituais dos Nacirema, mas a cultura desse povo permanece insuficientemente compreendida ainda hoje.
 
Trata-se de um grupo norte-americano que vive no território entre os Cree do Canadá, os Yaqui e os Tarahumare do México, e os Carib e Arawak das Antilhas. Pouco se sabe sobre sua origem, embora a tradição relate que vieram do leste. Conforme a mitologia dos Nacirema, um herói cultural, Notgnihsaw, deu origem  à sua nação; ele é, por outro lado, conhecido por duas façanhas de força: ter atirado um colar de conchas, usado pelos Nacirema como dinheiro, através do rio Po- To- Mac e ter derrubado uma cerejeira na qual residiria o Espírito da Verdade.
 
A cultura Nacirema caracteriza-se por uma economia de mercado altamente desenvolvida, que evolui em um rico habitat. Apesar do povo dedicar muito do seu tempo às atividades econômicas, uma grande parte dos frutos deste trabalho e uma considerável porção do dia são dispensados  em atividades rituais. O foco destas atividades é o corpo humano, cuja aparência e saúde surgem como o interesse dominante no ethos deste povo. Embora tal tipo de interesse não seja, por certo, raro, seus aspectos cerimoniais e a filosofia a eles associadas são singulares.
 
A crença fundamental subjacente a todo o sistema parece ser a de que o corpo humano é repugnante e que sua tendência natural  é para a debilidade e a doença. Encarcerado em tal corpo, a única esperança do homem é desviar estas características através do uso das poderosas influências do ritual e do cerimonial. Cada moradia tem um ou mais santuários devotados a este propósito. Os indivíduos mais poderosos desta sociedade têm muitos santuários em suas casas e, de fato, a alusão  à opulência de uma casa, muito freqüentemente, é feita em termos do número de tais centros rituais que possua. Muitas casas são construções de madeira, toscamente pintadas, mas as câmeras de culto das mais ricas têm paredes de pedra. As famílias mais pobres imitam as ricas, aplicando placas de cerâmica  às paredes de seu santuário.
 
Embora cada família tenha pelo menos um de tais santuários, os rituais a eles associados não são cerimônias familiares, mas sim cerimônias privadas e secretas. Os ritos, normalmente, são discutidos apenas com as crianças e, neste caso, somente durante o período em que estão sendo iniciadas em seus mistérios. Eu pude, contudo, estabelecer contato suficiente com os nativos para examinar estes santuários e obter descrições dos rituais.
 
O ponto focal do santuário é uma caixa ou cofre embutido na parede. Neste cofre são guardados os inúmeros encantamentos e poções mágicas sem os quais nenhum nativo acredita que poderia viver. Tais preparados são conseguidos através de uma serie de profissionais especializados, os mais poderosos dos quais são os médicos-feiticeiros, cujo auxilio deve ser recompensado com dádivas substanciais. Contudo, os médicos-feiticeiros não fornecem a seus clientes as poções de cura; somente decidem quais devem ser seus ingredientes e então os escrevem em sua linguagem antiga e secreta. Esta escrita é entendida apenas pelos médicos-feiticeiros e pelos ervatários, os quais, em troca de outra dadiva, providenciam o encantamento necessário. Os Nacirema não se desfazem do encantamento após seu uso, mas os colocam na caixa-de-encantamento do santuário doméstico. Como tais substâncias mágicas são especificas para certas doenças e as doenças do povo, reais ou imaginárias, são muitas, a caixa-de-encantamentos está geralmente a ponto de transbordar. Os pacotes mágicos são tão numerosos que as pessoas esquecem quais são suas finalidades e temem usá-los de novo. Embora os nativos sejam muito vagos quanto a este aspecto, só podemos concluir que aquilo que os leva a conservar todas as velhas substâncias é a idéia de que sua presença na caixa-de-encantamentos, em frente à qual são efetuados os ritos corporais, irá, de alguma forma, proteger o adorador.
 
Abaixo da caixa-de-encantamentos existe uma pequena pia batismal. Todos os dias cada membro da família, um após o outro, entra no  santuário, inclina sua fronte ante a caixa-de-encantamentos, mistura diferentes tipos de águas sagradas na pia batismal e procede a um breve rito de ablução. As  águas sagradas vêm do Templo da Água da comunidade, onde os sacerdotes executam elaboradas cerimônias para tornar o líquido ritualmente puro.
 
Na hierarquia dos mágicos profissionais, logo abaixo dos médicos-feiticeiros no que diz respeito ao prestígio, estão os especialistas cuja designação pode ser traduzida por "sagrados-homens-da-boca". Os Nacirema têm um horror quase que patológico, e ao mesmo tempo fascinação, pela cavidade bucal, cujo estado acreditam ter uma influência sobre todas as relações sociais. Acreditam que, se  não fosse pelos rituais bucais seus dentes cairiam, seus amigos os abandonariam e seus namorados os rejeitariam. Acreditam também na  existência de uma forte relação entre as características orais e as morais: Existe, por exemplo, uma ablução ritual da boca para  as crianças que se supõe aprimorar sua fibra moral.
 
O ritual do corpo executado diariamente por cada Nacirema inclui  um rito bucal. Apesar de serem tão escrupulosos no cuidado bucal, este rito envolve uma prática que choca o estrangeiro não iniciado, que só pode considerá-lo revoltante. Foi-me relatado que o ritual consiste na inserção de um pequeno feixe de cerdas de porco na boca juntamente com certos pós mágicos, e em movimentá-lo então numa série de gestos altamente formalizados. Além do ritual bucal privado, as pessoas procuram o mencionado sacerdote-da-boca uma ou duas vezes ao ano. Estes profissionais  têm uma impressionante coleção de instrumentos, consistindo de brocas, furadores, sondas e aguilhões. O uso destes objetos no exorcismo dos demônios bucais envolve, para o cliente, uma tortura ritual quase inacreditável.  O sacerdote-da-boca abre a boca do cliente e, usando os instrumentos acima citados, alarga todas as cavidades que a degeneração possa ter produzido nos dentes. Nestas cavidades são colocadas substâncias mágicas. Caso não existam cavidades naturais nos dentes, grandes seções de um ou mais dentes são extirpadas  para que a substância natural possa ser aplicada. Do ponto de vista do cliente, o propósito destas aplicações é tolher a degeneração e  atrair amigos. O caráter extremamente sagrado e tradicional do rito evidencia-se pelo fato de os nativos voltarem ao sacerdote-da-boca ano após ano, não obstante o fato de seus dentes continuarem a degenerar.
 
Esperemos que quando for realizado um estudo completo dos Nacirema haja um inquérito cuidadoso sobre a estrutura da personalidade destas pessoas, Basta observar o fulgor nos olhos de um sacerdote-da- boca, quando ele enfia um furador num nervo exposto, para se suspeitar que este rito envolve certa dose de sadismo. Se isto puder ser provado, teremos um modelo muito interessante, pois a maioria da população demonstra tendências masoquistas bem definidas.
 
Foi a estas tendências que o Prof. Linton (1936) se referiu na discussão de uma parte específica dos ritos corporal que é desempenhada apenas por homens. Esta parte do rito envolve raspar e lacerar a superfície da face com um instrumento afiado. Ritos especificamente femininos  têm lugar apenas quatro vezes durante cada mês lunar, mas o que lhes falta em freqüência é compensado em barbaridade. Como parte desta cerimônia, as mulheres usam colocar suas cabeças em pequenos fornos por cerca de uma hora. O aspecto teoricamente interessante é que um povo que parece ser preponderantemente masoquista tenha desenvolvido especialistas sádicos.
 
Os médicos-feiticeiros têm um templo imponente, ou latipsoh, em cada comunidade de certo porte. As cerimônias mais elaboradas, necessárias para tratar de pacientes muito doentes, só podem ser executadas neste templo. Estas cerimônias envolvem não apenas o taumaturgo, mas um grupo permanente de vestais que, com roupas e toucados específicos, movimentam-se serenamente pelas câmaras do templo.
 
As cerimonias latipsoh são tão cruéis que é de surpreender que uma boa proporção de nativos realmente doentes que entram no templo se recuperem. Sabe-se que as crianças pequenas, cuja doutrinação ainda é incompleta, resistem  às tentativas de levá-las ao templo, porque "é lá que se vai para morrer". Apesar disto, adultos doentes não apenas querem mas anseiam por sofrer os prolongados rituais de purificação, quando possuem recursos para tanto. Não importa quão doente esteja o suplicante ou quão grave seja a emergência, os guardiões de  muitos templos não admitirão um cliente se ele não puder dar uma  dádiva valiosa para a administração. Mesmo depois de ter-se conseguido a admissão, e sobrevivido às cerimônias, os guardiães não permitirão ao neófito abandonar o local se ele não fizer outra doação.
 
O suplicante que entra no templo é primeiramente despido de todas as suas roupas. Na vida cotidiana o Nacirema evita a exposição de seu corpo e de suas funções naturais. As atividades excretoras e o banho, enquanto parte dos ritos corporais, são realizados apenas no segredo do santuário doméstico. Da perda súbita do segredo do corpo quando da entrada no latipsoh, podem resultar traumas psicológicos. Um homem, cuja própria esposa nunca o viu em um ato excretor, acha-se subitamente nu e auxiliado por uma vestal, enquanto executa suas funções naturais num recipiente sagrado. Este tipo de tratamento cerimonial é necessário porque os excreta são usados por um adivinho para averiguar o curso e a natureza da enfermidade do cliente. Clientes do sexo feminino, por sua vez, têm seus corpos nus submetidos ao escrutínio, manipulação e aguilhadas dos médicos-feiticeiros.
 
Poucos suplicantes no templo estão suficientemente bons para fazer qualquer coisa além de jazer em duros leitos. As cerimônias diárias, como os ritos do sacerdote-da-boca, envolvem desconforto e tortura. Com precisão ritual as vestais despertam seus miseráveis fardos a cada madrugada e os rolam em seus leitos de dor enquanto executam abluções, com os movimentos formais nos quais estas virgens são altamente treinadas. Em outras horas, elas inserem bastões mágicos na boca do suplicante ou o forçam a engolir substâncias que se supõe serem curativas.
De tempos em tempos o médico-feiticeiro vem ver seus clientes e espeta agulhas magicamente tratadas em sua carne. O fato de que estas cerimônias do templo possam não curar, e possam mesmo matar o neófito, não diminui de modo algum a fé das pessoas no médico feiticeiro.
 
Resta ainda um outro tipo de profissional, conhecido como um "ouvinte". Este "doutor-bruxo" tem o poder de exorcizar os demônios que se alojam nas cabeças das pessoas enfeitiçadas. Os Nacirema acreditam que os pais enfeitiçam seus próprios filhos; particularmente, teme-se que as mães lancem uma maldição sobre as crianças enquanto lhes ensinam os ritos corporais secretos. A contra-magia do doutor bruxo é inusitada por sua carência de ritual. O paciente simplesmente conta ao "ouvinte" todos os seus problemas e temores, principalmente pelas dificuldades iniciais que consegue rememorar. A memória demonstrada pelos Nacirema  nestas sessões de exorcismo é verdadeiramente notável. Não é incomum  um paciente deplorar a rejeição que sentiu, quando bebê, ao ser desmamado, e uns poucos indivíduos reportam a origem de seus problemas aos feitos traumáticos de seu próprio nascimento.
 
Como conclusão, deve-se fazer referência a certas práticas que têm suas bases na estética nativa, mas que decorrem da aversão profunda ao corpo natural e suas funções. Existem jejuns rituais para tornar magras pessoas gordas, e banquetes cerimoniais para tornar gordas pessoas magras. Outros ritos são usados para tornar maiores os seios das mulheres que os têm pequenos e torná-los menores quando são grandes. A insatisfação geral com o tamanho do seio é simbolizada no fato de a forma ideal estar virtualmente além da escala de variação humana. Umas poucas mulheres, dotadas de um desenvolvimento hipermamário quase inumano, são tão idolatradas que podem levar uma boa vida simplesmente indo de cidade em cidade e permitindo aos embasbacados nativos, em troca de uma taxa, contemplarem-nos.
 
Já fizemos referência ao fato de que as funções excretoras são ritualizadas, rotinizadas e relegadas ao segredo. As funções naturais de reprodução são, da mesma forma, distorcidas. O intercurso sexual é tabu enquanto assunto, e  é programado enquanto ato. São feitos esforços para evitar a gravidez, pelo uso de substâncias mágicas ou pela limitação do intercurso sexual a certas fases da lua. A concepção é na realidade, pouco freqüente. Quando grávidas as mulheres vestem-se de modo a esconder o estado. O parto tem lugar em segredo, sem amigos ou parentes para ajudar, e a maioria das mulheres não amamenta seus rebentos.
 
Nossa análise da vida ritual dos Nacirema certamente demonstrou ser este povo dominado pela crença na magia. É difícil compreender como tal povo conseguiu sobreviver por tão longo tempo sob a carga que impôs sobre si mesmo. Mas até costumes tão exóticos quanto estes aqui descritos ganham seu real significado quando são encarados sob o ângulo relevado por Malinowski, quando escreveu:
 
"Olhando de longe e de cima de nossos altos postos de segurança na civilização desenvolvida, é fácil perceber toda a crueza e irrelevância da magia. Mas sem seu poder de orientação, o homem primitivo não poderia ter dominado, como o fêz, suas dificuldades práticas, nem poderia ter avançado aos estágios mais altos da civilização"

* Horace Miner In: A.K. Rooney e P.L. de Vore (orgs) YOU AND THE OTHERS - Readings in Introductory Anthropology (Cambridge, Erlich) 1976 

Reflexões geradas a partir dessa proposta:
Reflexão da Lidi 

sábado, 27 de março de 2010

Bruta flor do querer*



Quando era menino, o pintor mexicano Diego Rivera entrou numa loja, numa dessas antigas lojas cheias de mágicas e surpresas, um lugar encantado para qualquer criança. Parado diante do balcão e tendo na mão apenas alguns centavos, ele examinou todo o universo contido na loja e começou a gritar, desesperado: "O que é que eu quero???"

Quem nos conta isso é Frida Kahlo, sua companheira por mais de 20 anos. Ela escreveu que a indecisão de Diego Rivera o acompanhou a vida toda. Ao ler isso, me perguntei: quem de nós sabe exatamente o que quer?

A gente sabe o que não quer: não queremos monotonia, não queremos nos endividar, não queremos perder tempo com pessoas mesquinhas, não queremos passar em branco pela vida. Mas a pergunta inicial continua sem resposta: o que a gente quer, o que iremos escolher entre tantas coisas interessantes que nos oferece esta loja chamada Futuro? Sério, a loja em que o pequeno Diego entrou chamava-se, ironicamente, Futuro.

O que é que você quer? Múltiplas alternativas. Medicina. Arquitetura. Música. Homeopatia. Casar. Ficar solteiro. Escrever um livro. Fazer nada o dia inteiro. Ter dois filhos. Ter nenhum. Cruzar o Brasil de carro. Entrar pra política. Tempo para ler todos os livros do mundo. Conhecer a Grécia. Morar na Grécia. Morrer dormindo. Não morrer. Aprender chinês. Aprender a tocar bateria. Desaprender tudo o que aprendeu errado. Acupuntura. Emagrecer. Ser famoso. Sumir.

O que você quer? Morar na praia. Filmar um curta. Arrumar os dentes. Abrir uma pousada. Recuperar a amizade com seu pai. Trocar de carro. Meditar. Aprender a cozinhar. Largar o cigarro. Nunca mais sofrer por amor. Nunca mais.

O que você quer? Viver mais calmo. Acelerar. Trancar a faculdade. Cursar uma faculdade. Alta na terapia. Melhorar o humor. Um tênis novo. Engenharia Mecânica. Engenharia Química. Um mundo justo. Cortar o cabelo. Alegrias. Chorar.

Abra a mão, menino, deixe eu ver quantos centavos você tem aí. Olha, por este preço, só uma caixinha vazia, você vai ter que imaginar o que tem dentro.

Serve.

*Crônica de Martha Medeiros


quinta-feira, 25 de março de 2010

Um pouco de 'Etnocentrismo'

Etnocentrismo é uma visão de mundo onde o nosso próprio 
grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são 
pensados e sentidos  através dos nossos valores, nossos 
modelos, nossas definições do que é a existência. 
(ROCHA, 1984. p. 7)



Para a aula de Antropologia desta semana tivemos de ler um livrinho de bolso chamado "O que é etnocentrismo", de Everardo Rocha. Muito boa a leitura (como a maioria destes da coleção primeiros passos), para quem se interessa sobre o assunto, recomendo. No livro, o autor conta uma historinha que é bastante conhecida e que eu gostaria de compartilhar.. 

"Ao receber a missão de ir pregar junto aos selvagens um pastor se preparou durante dias para vir ao Brasil e iniciar no Xingu seu trabalho de evangelização e catequese. Muito generoso, comprou para os selvagens contas, espelhos, pentes, etc; modesto, comprou para si próprio apenas um moderníssimo relógio digital capaz de acender luzes, alarmes, fazer contas, marcar segundos, cronometrar e até dizer a hora sempre absolutamente certa, infalível. Ao chegar, venceu as  burocracias inevitáveis e, após alguns meses, encontrava-se em meio às sociedades tribais do Xingu distribuindo seus presentes e sua doutrinação. Tempos depois, fez-se amigo de um índio muito jovem que o acompanhava a todos os lugares de sua pregação e mostrava-se admirado de muitas coisas, especialmente, do barulhento, colorido e estranho objeto que o pastor trazia no pulso e consultava frequentemente. Um dia, por fim, vencido por insistentes pedidos, o pastor perdeu seu relógio dando-o, meio sem jeito e contragosto, ao jovem índio.
A surpresa maior estava, porém, por vir. Dias depois, o índio chamou-o apressadamente para mostrar-lhe, muito feliz, seu trabalho. Apontando seguidamente o galho superior de uma árvore altíssima nas cercanias da aldeia, o índio fez o pastor divisar, não sem dificuldade, um belo ornamento de penas e contas multicolores tendo no centro o relógio. O índio queria que o pastor compartilhasse a alegria da beleza transmitida por aquele novo e interessante objeto. Quase indistinguível em meio às penas e contas e, ainda por cima, pendurado a vários metros de altura, o relógio, agora mínimo e sem nenhuma função, contemplava o sorriso inevitavelmente amarelo no rosto do pastor. Fora-se o relógio.
Passados mais alguns meses o pastor também se foi de volta para a casa. Sua tarefa seguinte era entregar aos superiores seus relatórios  e, naquela manhã, dar uma última revisada na comunicação que iria faezr em seguida aos seus colegas em congresso sobre evangelização. Seu tema: 'A catequese e os selvagens'. Levantou-se, seu uma olhada no relógio novo, quinze para as dez. Era hora de ir. Como que buscando uma inspiração de última hora examinou detalhadamente as paredes do seu escritório. Nelas, arcos, flechas, tacapes, bordunas, cocares e até uma flauta formavam uma bela decoração. Rústica e sóbria  ao mesmo tempo, trazia-lhe estranhas lembranças. Com o pé na porta ainda pensou e sorriu para si mesmo. Engraçado o que aquele índio foi fazer com o meu relógio."

E o índio, se visse a decoração da parede do escritório do pastor, não pensaria a mesma coisa?? 
Os dois tiveram a mesma atitude em relação aos objetos da cultura um do outro... 
Cada um "traduziu" nos termos de sua própria cultura o significado dos objetos cujo sentido original foi forjado na cultura do "outro". (ROCHA, 1984. p. 13)


Depois disso,  na aula de ontem, fizemos a leitura de um texto interessantíssimo que fala da cultura dos "NACIREMA" (ô povo incompreensivel este!).. Como você se sentiria sendo interpretado por alguém que possui uma "visão de fora" da sua cultura???? É mais ou menos sobre isto que trata a próxima reflexão.. mas é longo... este ficará para a próxima!


Bibliografia:
ROCHA, E. O que é etnocentrismo. São Paulo: Editora brasiliense, 1984.

sábado, 20 de março de 2010

Objetos da memória


13 de janeiro de 1994. Manhã ensolarada, temperatura agradável. Enfim chegava o dia tão esperado por Íris durante a semana inteira. Era um dia especial para ela, pois a família se reunia nos finais de semana e ela podia se divertir e brincar com seu primo, Luan.

As reuniões aconteciam todos os finais de semana, mas aquele era especial. A família possuía uma chácara e era para lá que eles iam todos os finais de semana. Porém, desta vez seria diferente, passariam o final de semana na praia.

8h30: Íris entrou no carro de seus pais – um fusca marrom - e enquanto os aguardava no carro, abriu sua mochila, conferindo os brinquedos que havia pegado. Dentre eles, estavam uma caixinha de música, uma pequena boneca de pano, uma caneta roxa (que a menina descobriu no meio das coisas de sua mãe) e uma caderneta – que ela usava como diário, escrevendo sobre suas atividades diárias. Além destes, ela guardava os brinquedos de praia, e algumas bonecas de plástico, para brincar na água. Em seguida, seus pais colocaram as malas no carro e partiram rumo ao encontro dos outros familiares. Na casa de praia, largaram as malas e correram para a praia, para aproveitar a manhã tão linda.

9h15: Íris e Luan corriam em direção ao mar. Não sei por que as crianças sempre agem como peixinhos.  Depois de um tempo, foram brincar na areia, montaram castelos que se desmoronaram, e por fim criaram uma pequena cidadezinha de areia. Luan havia levado uns bonequinhos pequenos e um barquinho de plástico. Com algumas conchas e pedrinhas eles criaram os limites da pequena cidade e com um buraco feito na areia criaram um grande lago. Em pouco tempo aquela cidade estava habitada. Habitada pela imaginação dos dois primos que se divertiam em meio a muitas brigas, o que era normal. Os dois primos nem perceberam quanto tempo havia passado, para eles, parecia nada. Logo o tempo começou a virar, aproximava-se uma grande tempestade. Íris e Luan nem se afligiram e continuaram brincando. Até que ouviram a voz de seus pais os chamando com pressa para entrarem no carro. Quando Íris estendeu as mãos para pegar os brinquedos sentiu ser agarrada com força pela cintura enquanto começava a soprar um forte vento. Era sua mãe, que com pressa pegou a menina do jeito que estava e a colocou dentro do carro. A maré subia e grande parte das coisas foram levadas pelos mar. Nas mãozinhas da menina restaram apenas 3 objetos pequenos. Quando todos entraram nos carros começaram a cair os primeiros pingos. Em questão de poucos minutos a tempestade tomava conta do lugar.

Ao chegar à casa de praia, um a um foi tomar um banho quente, pois o frio havia invadido o lugar. Íris, muito triste pelos brinquedos que a maré havia levado, foi limpar o que havia ficado em suas mãos. Ela havia pegado um bonequinho de Luan, uma concha e um objeto estranho, o qual ela não conhecia – e que não fazia parte da cidade criada pelas crianças na praia.

O objeto tinha uma forma oval e cabia na palma da mão da menina. Muito leve, era de um material diferente, que íris nunca tinha visto. Parecia uma pedra, mas não pesava nada. Estava muito sujo de areia, e quando a menina lavou pode enxergá-lo melhor. O objeto quase brilhava. Era de uma cor diferente.. Uma mistura da cor de terra com um tom alaranjado.. Era lindo. A menina não conhecia aquela forma, nem aquela cor e ficara impressionada com aquela pedrinha brilhante em suas mãos. A tristeza pela perda dos brinquedos havia perdido o lugar para um sentimento que ela jamais soube explicar.
Íris guardou aquele objeto dentro da caixinha de música e se deitou de bruços em sua cama. Com a caixinha aberta, visualizando tal objeto, a menina começou a escrever sobre o seu dia.

Querido Diário,
Hoje fui à praia com mamãe, papai , tio Carlos, tia Bete, dinda, tio Renato, tia Fátima e Luan. Eu e o Luan brincamos bastante e construímos uma cidade diferente na areia!  Lá as pessoas todas se tratavam bem e gostavam umas das outras. Não haviam guerras.  Todos trabalhavam em união, para obter o seu sustento.Não existiam ladrões. Todo mundo podia andar livre pelas ruas e a vida era uma festa!  Todos os animais eram amigos das pessoas. Era um lugar cheio de paz. Eles utilizavam amuletos como símbolos de paz interior  e cada bebê que nascia recebia um de presente.
Depois choveu e tivemos que ir embora da praia. Mas aconteceu algo tão estranho...
Voltei pra casa com um pequeno objeto... tão bonito. Acho que eles me enviaram um amuleto!
Agora vou almoçar!
Íris


O quê seria aquele objeto e de onde vinha?
Teria sido trazido pelo mar? E a quem pertencia antes de chegar as mãos de Íris?
Se tratava de um elemento feito pela natureza ou pelas mãos do homem?
Que história ele trazia consigo?
Seria fruto da imaginação da menina? Aquela civilização teria de fato existido?


Íris nunca descobriu, mas, a partir daquele final de semana sua vida mudou completamente.

O quê estes filmes têm em comum?

O quê estes filmes têm em comum?
"Le fabuleux destin d'Amélie Poulain", "Uma vida iluminada" e "Coisas insignificantes".