Sobre este espaço

Este é um espaço destinado à reflexões acerca da memória, do tempo e de histórias.. Histórias de vida, histórias inventadas, histórias... Um espaço onde a imaginação possa fluir, viajar. Um espaço também para escrever sobre minhas reflexões referentes aos meus estudos sobre arqueologia e antropologia... Antes de mais nada, uma espécie de Diário daquilo que me impulsiona, um lugar para organizar (ou tentar) meus pensamentos.. antes que eles voem por aí.

Boa exploração!

Roberta Cadaval

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Júpiter e Netuno

Às vezes sinto uma necessidade de escrever. Escrever sobre a vida, as sensações, dores, amores. Às vezes nem sei o quê, mas escrever! Penso que escrever é como desenhar, é friccionar a caneta ou lápis sob o papel e observar os resultados. Movimentar os dedos e criar formas, luzes e sombras. Contornos. Até narrativas. Às vezes não sabemos onde chegaremos através desse movimento. Expressões, impressões. Mímese I, mímese II, mímese III. Observar e apreender o mundo, expressar essas impressões e oferecê-las ao mundo. Mais um processo cíclico. Influência: Paul Ricoeur. Pausa. Algumas vezes nem sei do que falo, mas o que sinto me conduz a alguns caminhos, me revelam palavras. Da mesma forma que alguns recortes do cotidiano vivido brilham para mim quase gritando: Me faça eterno! Um botão é apertado e um instante congelado. Não é o meu olhar, é o meu sentir. É o meu sentir que direciona meu olhar. Gosto dos detalhes, daquilo que nem sempre é percebido. Gosto das marcas, linhas na pele, expressões que contam histórias. Júpiter e Netuno no meu mapa explicam tudo isso. Peixes explicam a musicalidade nas minhas palavras. Amor, doação, arte. Arte, vida. Em eterna construção...

sábado, 11 de junho de 2011

Diálogos

Gosto de diálogos de luz, diálogos de amor.
Klinamens gerados pelo processo singular.
Processo singular que se faz plural.
Sonhos, cantos, encontros, encantos.
Imagens.
A imagem que sobrepuja o efêmero.
Efêmero instante da saudade.
Saudade fixada pela luz no papel fotossensível.
Sensível-arte.
Arte que transborda pelos poros de processos.
Processos plurais, singulares diálogos.
Diálogos de luz, diálogos de amor.
Extra-amor.

Desvios para a liberdade


Estamos familiarizados com exposições de arte em espaços convencionais do sistema das artes como galerias e centros culturais, no entanto acreditamos na necessidade de transgredir estes espaços na busca de uma arte interventiva, como muitos artistas vêm fazendo pelas ruas e avenidas do mundo. 

Portanto, essa proposta de uma exposição na biblioteca central da FURG foi se constituindo como uma maneira de extrapolar o espaço instituído da arte em um fluxo de interações que despertem outras relações com a produção artística, ou seja, interações em outros espaços, conectados com o cotidiano das pessoas, nesse caso, especificamente, com os viventes que transitam por nossa biblioteca.

Talvez a palavra exposição não dê conta da proposta no seu intuito interventivo e descentralizado das obras, misturadas com os livros, estantes e demais elementos que constituem o corpo físico da biblioteca. Pensamos de forma interventiva, e essa é a palavra, uma exposição-intervenção, para estabelecer com as pessoas que se depararem com os trabalhos uma relação para além do espaço formal da arte, uma interação em um espaço do dia-a-dia, uma relação que possa provocar nesse ambiente, novas subjetividades, sentimentos e reflexões.

O fio condutor dos trabalhos é a temática “animal” passando pela discussão da vivissecção, do consumo de carne animal, da dominação e da superioridade sobre o outro. Esse tipo de relação tem travado grandes enfrentamentos no que diz respeito à ética do humano consigo quando da escravatura, do apartheid, das ditaduras, etc. A privação de liberdade entre humanos extrapola as relações entre congêneres com intento de dominação. Por um estilo de vida consumista e de status de superioridade se estabelece o comércio de animais, o consumo de suas peles, o uso deliberado de suas vidas para pesquisas, o enclausuramento em gaiolas, os “espetáculos” circenses e rodeios, etc.

Como manifestação artística e educativa não-formal por um ambiente e relações mais saudáveis e sem opressão, essa intervenção propõe, nesse espaço de estudos, reflexões, e conhecimentos que é a biblioteca, provocar novos pensamentos e, sobretudo, novos sentimentos em relação à VIDA!

Inspeção – Anne Farias - anneqf@gmail.com
Devir-animal – Cláudio Azevedo – claudiohifi@yahoo.com.br
Laços de Domínio Laços de Amor – karine Sanchez - kakasanchez_rs@yahoo.com.br
Aos invisíveis – Priscila Reis - reis.bio08@gmail.com
Escolhas – Roberta Cadaval - robertakdaval@hotmail.com

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Devindo.

Tree of Reveri. Josephine Wall.

 Por influência da leitura da escrita de uma memória que não se apaga¹.

Eles foram. Voltaram. Não puderam ser.
Viveram. Sentiram. Encontraram-se.
Entendendo. Percorrendo.
Eles voaram e voltaram a se ver.

¹ livro de Ângela Mucida.
Escrita de uma memória que não se apaga - envelhecimento e velhice. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Eu não tenho pressa

As coisas em constante movimento e eu estática a observar. Luzes distorcidas, luzes difusas, sons que se misturam ao veludo azul nos meus ouvidos. Azul da encantadora de baleias, o azul do lápis que acaricia esse papel. O lápis que veio voando pelo gesto carinhoso de um amigo. Rompendo fronteiras. Os sentimentos viajam, estáticos na fluidez do tempo,contrários a direção que estou sendo levada. Quero caminhar rumo ao longe, mas agora a chuva insiste em me mostrar coisas que não quero ver. Inerte em meus pensamentos tão distantes. Sonho, vida, amor e arte. A realidade insiste em me transportar do mundo em que estou agora. Velocidade é o estado da razão. Quero ser livre, viver no mundo que é real dentro de mim. Mundo cheio de cores, cheiros e tons. Curtir e perceber os sinais a minha volta. Para a chuva e me diz que estou no caminho certo. Tempo de voar, viver, sonhar. Distante daqui tão perto de mim. Vou ao encontro daquilo que me chama. E assim, continuo buscando os caminhos que tem coração.

Vida!

Experimentei a sensação de vivacidade. Senti meu corpo.
Enchi os pulmões de ar e senti esse sopro que alimenta minha alma.
Meu pai acariciou meus cabelos através do vento e das gotículas que não cessam em cair. Pássaros e mandalas cantando para mim. Violetas, talvez?
Sensação de plenitude. Vejo que tudo valeu a pena...

Obrigada!

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Processos cíclicos

Fim do ciclo material. Auto-retrato. Agosto de 2010. 
 
Depois de tanto tempo sem retornar a este espaço, retorno propondo uma reflexão acerca dos processos e ciclicidade das coisas. Meu objetivo aqui, é refletir sobre a vida e o tempo como um processo, seja ele criativo, poético, efêmero, etc. Antes de prosseguir, retomo o significado destes conceitos - referentes à forma que pretendo discutir:

Processo:    
1. Método, sistema, modo de fazer uma coisa.
Ciclicidade: 
1. Qualidade do que é cíclico - ou referente à ciclo.
Ciclo:
1. Série de fenômenos que se sucedem numa ordem determinada.
2. Parte de um fenómeno periódico que se efectua! durante certo espaço de tempo.

Assim, processos cíclicos poderiam resumir-se em métodos que se repetem em um intervalo específico do tempo? Acho que não é tão simples assim... Jorge Drexler - músico, poeta e mestre na arte de transformar processos em ciclos musicais! - em algumas de suas músicas (como Todo se transforma e Guitarra e Vos), já nos fala sobre a ciclicidade das coisas,

El vino que pagué yo,
Con aquel euro italiano
Que había estado en un vagón
Antes de estar en mi mano,
Y antes de eso en torino,
Y antes de torino, en prato,
Donde hicieron mi zapato
Sobre el que caería el vino.
(DREXLER, Todo se transforma)


Hay manos capaces de fabricar herramientas
Con las que se hacen máquinas para hacer ordenadores
Que a su vez diseñan máquinas que hacen herramientas
Para que las use la mano.
Hay escritas infinitas palabras:
Zen, gol, bang, rap, Dios, fin...
Hay tantas cosas
Yo sólo preciso dos:
Mi guitarra y vos
Mi guitarra y vos.
(DREXLER, Guitarra y Vos)

Ele nos fala sobre o processo das coisas, como o sapato já sujo de vinho, do vinho que foi pago com o euro italiano, que antes esteve no mesmo lugar onde foi feito o mesmo sapato; ou, as mãos que fabricam as ferramentas que fazem as máquinas que por sua vez são manipuladas pelas mesmas mãos que fabricaram as ferramentas... 

Porque eu trago tudo isso? Porque, para mim, Drexler demonstra a ciclicidade dos eventos de forma tão sutil. E nas entrelinhas encontramos aquilo que suscitou a reflexão em mim - e que me fez, de certa forma, compartilhar tudo isso aqui. 

No que me detenho? Na complexidade destes processos cíclicos, na temporalidade e na historicidade humana. Como podemos falar dos processos cíclicos em seres humanos? E destes mesmos processos cíclicos com os objetos manipulados pelos humanos?

Há poucos dias, me senti diante dessa questão. Dia 12 de maio, meu pai estaria fazendo 74 anos, e resolvi ir até a casa em que ele morava, já vazia, mas com algumas coisas ainda encaixotadas. Mexendo nestas coisas, encontrei anotações, bilhetes, reflexões, todas feitas pelo meu pai - em um tempo que o tempo apagou. Estas coisas conversavam comigo, como se meu pai estivesse diante de mim, acariciando meus ouvidos e minha memória com seus dizeres. A casa, já pertencente a um tempo sem tempo, ganhou vida e cor. Naquele espaço - fixo no tempo - acontecimentos atemporais se fundiram em um só. O toc toc do sapato da Mila, confundiu-se com o latido da Toy e o tossir do meu pai. O click da foto feita no sofá misturou-se com o congelamento do instante em que meu pai passava para a casa dos 70, abraçando meu irmão, a Mila, eu e o Claudinho. O corredor, longo e escuro, iluminou-se com o som que invadia a casa, vindo do quarto da frente, em um samba de ritmos, de rocks e blues. O quarto pequeno misturou sensações, desde o café na cama, à Toy pequena fugindo da caminha improvisada de papelão, à Marina fazendo rituais de energias aprendidos com a Débora. E os bons morrem jovens. A voz da minha mãe no telefone misturou-se ao pó que caía ao chão. Um afago, uma bronca, um carinho. Outros tempos, foundue na varanda vazia. A família, os amigos, todos habitando um mesmo espaço em diferentes temporalidades que se misturavam. 
E em meio a tudo isto, a sensação de estar diante daqueles que já foram invadiam meu espírito, tornando impresso na alma aquilo que de fundamental eu aprendi - com eles. Apropriando-me de algumas das palavras que a Mila me disse naquela noite, inicio a (in)conclusão desta reflexão:
Qual é o sentido em que me encontro hoje? Buscando os caminhos que tem coração.
Sigo no processo, envolvida por aquilo que vai, retorna e que se transforma.
Isso é parte da complexidade dos processos cíclicos.
Acho que essa discussão não acaba aí..

Cada uno da lo que recibe
Y luego recibe lo que da,
Nada es más simple,
No hay otra norma:
Nada se pierde,
Todo se transforma.
(Jorge Drexler.)


Links afins: Re-utilize!

sábado, 4 de dezembro de 2010

Um romance etnográfico

Depois de um longo tempo afastada deste espaço singelo, em função de estudos e mais estudos, retorno cheia de inspirações e aspirações! Como ficarei mais alguns dias afastada, deixarei aqui uma sugestão de leitura, que fiz esta semana e que me apaixonei.. continuo apaixonada... Recomendo para lerem nas férias!!!!



PHILIPPE DESCOLA
AS LANÇAS DO CREPÚSCULO
PRÓLOGO E PRIMEIRA PARTE 
(DOMESTICANDO A FLORESTA)

Na primeira parte do livro de Descola, o autor situa-nos entre os índios Achuar e contextualiza essa aventura etnográfica. Este livro, que podemos avocar como um romance etnográfico (pois a narrativa faz com que o leitor participe das atividades como se lá estivesse) envolve o leitor em todos os momentos, causando sensações próximas das que Descola narra ter vivido. As primeiras frustrações em relação à pesquisa, as dificuldades relacionadas à língua e imersão total nos hábitos e costumes de um povo tão diferente do etnólogo.

Inicialmente, o autor situa-nos sobre suas condições iniciais, enquanto etnólogo principiante, e suas aspirações e desejos de desenvolver uma pesquisa na área em que atuou. Primeiramente, ele contextualiza os índios Jivaro, explicando que, segundo etnografias já realizadas nesta região, estes se dividem em 4 tribos: Shuar, Aguaruna, Achuar e Huambisa. Seu objetivo era realizar um estudo sobre uma comunidade que pouco (ou nada) se sabia e, sendo assim, seu foco concentrava-se em uma destas tribos, os Achuar. Dos Achuar só se sabia, na época, que viviam a leste dos Shuar, que eram seus inimigos hereditários e que não cultivavam contatos com brancos. (DESCOLA, 2006. p. 41-42)


Apesar de o livro assumir a forma de um romance, o que ele narra não traz uma visão tão romântica do fazer antropológico. O autor é de fato estimulado pelo espírito aventureiro (o que, talvez, dê ao livro este tom mais romantizado) da busca pelo desconhecido, mas faz questão de transparecer todas as dificuldades e afrontamentos que o pesquisador tem de enfrentar ao pesquisar uma comunidade tão exótica. Primeiramente, o acesso até essas populações. De que forma chegar até elas e estabelecer o primeiro contato/diálogo? Depois do contato inicial, como relacionar-se com estas pessoas? Principalmente no caso dele, em que as informações que obteve (etnografias de pesquisadores que trabalharam com tribos vizinhas, relatos de missionários e viajantes e informações orais da população da cidade de Puyo) sobre estes povos - e esta tribo especificamente - apontavam continuamente para um ponto em comum: uma percepção dos Achuar como violentos, canibais e caçadores de cabeças. Sobre isto, destaco um ponto importante em que Descola transcreve como ‘uma lei implícita da prática etnográfica’;
O abismo irredutível que eu constatava entre o meu saber livresco e racionalista sobre os índios da Amazônia equatoriana e o universo lendário de que os habitantes de Puyo nos falavam tornou-se para mim a primeira ilustração de uma lei implícita da prática etnográfica. Se nos arriscássemos a formulá-la, parodiando a concisão da linguagem da física, ela poderia ser enunciada do seguinte modo: a capacidade de objetivação é inversamente proporcional à distância do objeto observado. Em outros termos, quanto maior o afastamento geográfico e cultural que o etnólogo estabelecer entre o seu ambiente de origem e o “campo” escolhido, tanto menos sensível ele estará aos preconceitos das populações dominantes locais em relação às sociedades marginais que estiver estudando. (DESCOLA, 2006. p. 28)

Com isto, o autor salienta que devemos filtrar as informações que colhemos no campo, acerca do grupo que escolhemos pesquisar, e que este processo torna-se menos complicado quando temos um distanciamento maior entre o meio em que vivemos e o campo que pretendemos estudar[1].


Mais adiante, Descola faz uma reflexão sobre o ofício do etnólogo e nos diz que numa formação voltada para as praticas lúdicas da humanidade, nada prepara o etnógrafo principiante para os episódios de camping desconfortável, somente a prática. Ele ainda nos dias que, o universo do etnólogo é menos o das estepes e matas virgens do que o das salas de aula, leituras e enfrentamentos com páginas em branco. Em seguida, o autor revela-nos sua trajetória - a qual acompanhamos com grande expectativa. Este momento do livro é bastante interessante, porque nos aproxima, enquanto principiantes, dos anseios e perspectivas de Descola, também principiante até então. Estimulado por Maurice Godelier e orientado por Claude Lévi-Strauss, Philippe Descola parte rumo ao desconhecido em meio à mata virgem da Amazônia equatoriana. E nós, leitores, o acompanhamos neste ousado passo, e não perdemos o avanço de seu trabalho.


Uma questão importante, destacada pelo autor, é sobre as divergências teóricas que existem, no campo da antropologia, entre diferentes escolas desta disciplina. Segundo ele, nesta carreira somos identificados pelo povo que estudamos e as afinidades intelectuais nascem muitas vezes da cumplicidade que existe devido à experiências etnográficas análogas. E mais, é raro que um pesquisador escolha uma região a ser estudada simplesmente ao acaso.  Cada região do mundo e cada tipo de sociedade suscita vocações especificas de acordo com o caráter de cada um, tipologia sutil que a própria pratica de campo se encarrega de fortalecer. (Descolas, 2006. p. 48) E assim, segundo este autor, os conflitos entre as escolas antropológicas representam, muitas vezes, uma incompreensão mútua entre divergências teóricas e diferentes estilos de se relacionar, que escondem incompatibilidades mais fundamentais nos modos de estar no mundo[2].


Ao adentrar no universo Achuar, Descola capitula suas primeiras descrições e interpretações em 9 partes: aprendizados, amanhecer, rumores de aldeia, tempo de parada - reflexão, comércios, roças, sonhos, caçadas e águas. Começando pelos aprendizados, o autor narra a experiência que viveu nos primeiros dias na aldeia. Acolhido por uma família Achuar, ele e sua esposa Anne Christine (para quem ele dedica este livro), aos poucos, foram deparando-se com a dificuldade na comunicação e com isso apareceram às primeiras frustrações. Este tipo de pesquisa não traz resultados simples e rápidos, é necessário paciência e dedicação do pesquisador. Nesta parte do livro, é muito interessante o percurso que o leitor viaja. Nas páginas de Descola, fazemos uma imersão nos hábitos e modos de viver dos Achuar, pois o autor vai para além de uma descrição do visível, ele traduz essas descrições de acordo com suas interpretações pautadas no próprio modo de pensar Achuar. E com brilhantismo e humildade, o autor expõe seu desejo de retornar para o aconchego de sua casa, fixando que, o que o ajudou a mantê-lo envolvido com seu objetivo, foi a presença de sua companheira, fiel até o fim da pesquisa. Ao aprendermos sobre cada espírito que acompanha as atividades achuar, suas relações de parentesco, simbologias e significados e chegamos finalmente à metáfora feita com o espelho de Alice, ao fim da parte 1 do livro, e verificamos, nas entrelinhas, o conselho de Lévi-Strauss dado para Descola: “Deixe-se levar pelo campo”. Nos primeiros contatos, Descola sentiu haver fracassado em seu papel de etnógrafo, enquanto que seu informante indígena cumpria bem a sua parte. Porém, isto demonstrou apenas uma realidade intrínseca do fazer antropológico: a necessidade de o pesquisador ter paciência e dedicação. Provavelmente, não é no primeiro contato que se estabelecem as primeiras percepções descritivas e interpretativas. As informações sobre um mito importante - que Descola pensava estar ‘perdendo’ por não compreender e não conseguir gravar - voltariam a tona em outro momento. Em um momento em que ele estaria mais bem preparado para compreender também.
Assim, deixando-se levar pelo campo e deixando o leitor envolver-se por este campo, ele termina a primeira parte solucionando um enigma que pensava haver perdido lá no inicio! Informações estas, que não aparecem de imediato, e só confirmam a importância de imergir totalmente na cultura a ser estudada.
Por fim, Descola traz-nos uma reflexão acerca dos dados etnográficos – que para ele, são qualquer coisa menos um saber constituído - e da etnografia versus etnologia, que, para o autor, a primeira refere-se ao registro e interpretação, enquanto que a segunda se esforça em trazer a luz princípios que regem o funcionamento dos diferentes sistemas identificáveis por hipóteses no seio de cada sociedade (sistemas políticos, econômicos, de parentesco), abrindo assim o caminho para a comparação com outras culturas.

Foto retirada do site http://www.achuarperu.org/


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
DESCOLA, Philippe. As lanças do crepúsculo. São Paulo: Cosac Naify, 2006.

[1] Acredito que seja importante analisar e descrever esse tipo de informação, ou mito, que são repassados através da História Oral, mas isto, para um estudo que seja desenvolvido sobre a comunidade em questão. No caso de a comunidade pesquisada ser a própria “Legião Estrangeira” (como Descola vem a chamar este mito) penso ser necessário levar em consideração, é claro, todas essas informações, mas com cuidado para não deixar se envolver demais por ela.
[2] Eu diria mais, “incompatibilidades mais fundamentais nos modos de ser e estar no mundo.”

sábado, 21 de agosto de 2010

A verdade sobre o tempo


Pato Fu
A verdade sobre o tempo
Composição: John Ulhoa

Ele pensa que a vida ficou pra trás
Então finge que nem liga que tanto faz
Ou não, ou não, a vida é como um gás
Só um sopro, só um vento, nada mais
E o ar que já lhe passou pelos pulmões
De tão velho já quer ir descansar
Daqui pro futuro falta só um piscar
Que é pro tempo não mais nos enganar
Ele agora vê que o tempo é uma ilusão
E o passado são as linhas em suas mãos
Ou não, ou não, a vida é muito mais
Que os dias, que os deuses, que jornais
E o ar que já lhe passou pelos pulmões
De tão velho já quer ir descansar
Daqui pro futuro falta só um piscar
Que é pro tempo não mais nos enganar
Ou não, ou não, a vida é como um gás
Só um sopro, só um vento, nada mais

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O que fica é saudade

Para o meu pai, Eroci Cadaval

O que fica é saudade.
É vazio, é vontade.
É o espaço do teu amor, da lembrança.
A memória brilhante daquilo que vivenciei ao teu lado.
Tua sabedoria me ensinou a verdade.
Tuas mãos me mostraram a beleza.
Teus passos, luz.
Sou o que sou por ter sido guiada, preparada.
Conduzida a te ensinar, a aprender contigo.
A trocar.
O toque.
O amor que não se vê.
Só se sente.
Na memória, no coração.
Impresso na alma.
O que fica... é saudade.

Roberta de Souza Cadaval

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Chimamanda Adichie: o perigo de uma história única

Nossas vidas, nossas culturas são compostas de muitas histórias sobrepostas. 
A escritora Chimamanda Adichie conta a história de como ela encontrou sua autêntica voz cultural - e adverte-nos que se ouvimos somente uma única história sobre uma outra pessoa ou país, corremos o risco de gerar grandes mal-entendidos. (Traduzido para o Português (Brasil) por Erika Barbosa) 
 
 
Postado por Teresa Lenzi no blog: Histórias de vidas vividas!

terça-feira, 6 de julho de 2010

Envelhecer - sobre o processo de envelhecimento

Estava pesquisando uns livros da Simone de Beauvoir, sobre a velhice, e encontrei esta matéria na revista digital Partes... achei algumas questões interessantes e resolvi colocar aqui, para facilitar a consulta e para os interessados na temática. Quem quiser conferir no site de origem basta clicar aqui!
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Envelhecer com dignidade
Fátima Teixeira
 
A poucos dias, num programa de televisão participavam algumas pessoas, entre elas uma atriz que revelou estar com mais de 70 anos e uma jovem modelo de 20 e poucos anos.

A atriz, além de talentosa, mantém uma aparência conservada não demonstrando a idade real. A modelo, por sua vez, preenche todos os quesitos que definem os padrões de beleza para a sociedade atual.

Por vários momentos a atriz, de forma bem humorada, fez referência à sua própria condição como alguém que envelheceu e já não apresenta mais a sedução como arma feminina, colocando-se em franca desvantagem frente a beleza exuberante da modelo. Num determinado ponto da entrevista a atriz, sem esconder um certo tom de desprezo e ressentimento, expressou: "A velhice é indigna". Esta frase, com um forte componente negativo a respeito da velhice, nos instiga a refletir sobre a forma como foi construída a identidade do velho em nosso país. Toda a dificuldade, principalmente da mulher em enfrentar essa fase da vida, foi gerada por um padrão cultural de beleza poderosamente cruel. 

Até a década de 70, o Brasil foi considerado um país de jovens. Nessa ocasião, as próprias características demográficas da população brasileira foram utilizadas pela ideologia do regime político vigente, para reforçar a idéia discriminatória em relação ao velho. Assim, a imagem da velhice, presente no imaginário das pessoas em geral, foi se impregnando de valores estigmatizadores, nos quais foram evidenciados os aspectos negativos do envelhecimento, tendo como parâmetro a imagem do jovem. Desta forma, a doença, a inatividade, o abandono, as rugas, a flacidez do corpo, a solidão, são algumas das características que definem o "ser velho". As qualidades opostas a estas foram creditadas como bonificações pertencentes aos jovens.

Ocorre, que o sentimento de juventude permanece no íntimo das pessoas e as mudanças na aparência, que vão se operando ao longo do tempo, passam despercebidas para o indivíduo. É o olhar do outro que dá a exata dimensão da passagem dos anos e Simone de Beauvoir retratou na seguinte frase: "O indivíduo idoso sente-se velho através do outro, sem ter experimentado sérias mutações; interiormente não adere à etiqueta que se cola à ele: não sabe mais quem é". (Beauvoir, 1990:358)

Evidentemente envelhecer significa passar por perdas decorrentes, principalmente, de mudanças na aparência física. Cabelos embranquecidos, diminuição da acuidade visual e auditiva, a formação de gorduras localizadas, especialmente nas mulheres, são alguns sinais facilmente percebidos e estão associados à idéia de desgaste e enfraquecimento. Essas mudanças, próprias da velhice, não são consideradas doenças pelos geriatras e gerontólogos, porém interferem na auto estima do idoso podendo gerar problemas como depressão.

No entanto, envelhecer pode significar aquisições que só podem ser obtidas por meio do acúmulo de experiências vividas no decorrer dos anos. O envelhecimento, por ser um processo natural do ciclo da vida, pode ser atravessado com dignidade e prazer porque ele expressa a forma como vivemos as etapas anteriores. É importante entender que as perdas não ocorrem apenas na velhice, mas em todas as fases, do nascimento ao fim da vida. A nossa sociedade valoriza a juventude e reserva à velhice somente o déficit, a falta de expectativas fazendo com que o próprio idoso desista dos seus projetos de futuro. 

Atualmente, o conceito de velhice vem passando por transformações e, embora de maneira lenta, vem estabelecendo uma nova relação da nossa cultura com o envelhecimento.

O aumento do número de velhos, no âmbito da população em geral, vem trazendo uma visibilidade social e gerando uma nova demanda de preocupações e interesses sociais. Podemos citar algumas iniciativas, tanto do poder público quanto da sociedade civil, na formulação de programas e projetos dirigidos aos maiores de 60 anos. Trata-se de espaços que ajudam na ampliação das relações sociais, dando ao idoso a oportunidade de desenvolver, tanto a sociabilidade como algumas potencialidades que lhe dá uma melhor qualidade de vida. 

A participação dos idosos em diferentes atividades, além de fortalecer laços de amizade fora do contexto familiar, abre a perspectiva de novas e enriquecedoras experiências. Colaboram ainda para a formação de uma nova mentalidade a respeito da velhice que deverá influenciar as gerações futuras.

A prática da dança se aplica como exemplo de uma atividade importante para propiciar o bem estar do idoso. O movimento provocado pelo exercício corporal tem se mostrado bastante eficiente para melhorar alguns problemas de saúde, mas sempre com recomendação médica e acompanhamento de profissional responsável. A dança, também facilita ao idoso se liberar, se expressar através do corpo e demonstrar que, apesar do avanço da idade, é possível viver de forma prazerosa e feliz.

Bibliografia:
BEAUVOIR, Simone de. A Velhice. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1990.
MESSY, Jch. A Pessoa Idosa Não Existe: uma abordagem psicanalítica da velhice. São Paulo, Editora Aleph, 1993.

I Fórum Internacional da Temática Indígena


Fazia tempo que não vinha postar no blog.. andava em fim de semestre, estudando bastante m função dos prazos de provas e trabalhos para entregar. Ufa, no fim deu tudo certo e cá estou eu! 
Nos dias 27 à 30 de junho estive em Porto Alegre com as minhas colegas e companheiras de estudo, Aline e Thamara. Fomos participar do I Fórum Internacional da Temática Indígena. Foi muito bom.
Dentre todos os acontecimentos, gostaria de destacar a presença da Profª Drª Márcia Bezerra, do Coral Mbyá-Guarani da Aldeia do Cantagalo e as falas dos índios Bruno Ferreira, Zaqueu Key Claudino e Vherá Poty.
No dia em que os índios aqui citados falaram, fiz uma postagem no outro blog (Colcha de retalhos).. Quem quiser conferir é só clicar aqui: Sobre as coisas simples de que falo
Claro que, dentre todas as coisas maravilhosas que disseram, destaquei o que é relacionado aos 'velhos' e os modos de vida distintos de ambas as culturas (indígenas e não-indígenas)..
Compartilho com vocês, algumas das frases que mais mexeram comigo..

"Os nossos velhos são os detentores da nossa tradição. Eles são a nossa biblioteca." 
(Zaqueu Key Claudino)

"Os nossos velhos são os verdadeiros sábios da nossa vida. Através deles que a gente não se perde nessa dificuldade que a vida é."

"A mesa não fala. A mesa te tranca. Mas as pessoas não. As pessoas não te fazem apenas ver, mas viver."
(Vherá Poty)

O Bruno participou ativamente de todas as palestras, manifestou todas as suas dúvidas, inquietações e reflexões. De forma brilhante ele relatou um pouco da sua experiência na cidade.. e dentre essas histórias, destaco uma para compartilhar aqui...
"Eu estava com meu amigo e achamos algumas moças bonitas.. fomos falar com elas e elas nos perguntaram 'O que vocês são?' ... Então meu amigo lhes respondeu: 'Somos gente!"

Sem palavras... claro que são gente.. como nós!
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Essa experiencia me cutucou a pensar em algumas coisas... como questões que referem-se à história oficial da América e a forma como é ensinada nas escolas (como se refere aos índios). A todos aqueles que tem ou tiveram como objetivo interferir nos modos de vida dos índios...

Porquê tentar interferir na vida deles ao invés de fazermos um processo inverso?

Quanto aos velhos, por exemplo.. a aceleração e ansiedade, características no estilo de vida em que vivemos, reflete na vida dos velhos de forma tão negativa. Causam infelicidade, frustração os transformando em 'coisas' obsoletas. 
E ainda achamos que podemos ou devemos transformar ou julgar o modo de vida dos indígenas?
Sim, são culturas diferentes, portanto não devemos comparar... mas é inevitável a comparação.
Fico admirada em observar a forma como eles, os índios, tratam seus velhos. 
E perplexa por perceber, através da forma como os indígenas se relacionam com isso, como nós "coisificamos" os nossos velhos... gente como a gente - àqueles a quem deveríamos ter muito respeito.

Deixo aqui apenas um desabafo e mais uma vez um convite a reflexão...
Vamos repensar as formas como nos relacionamos com o mundo a nossa volta.. e fazer pequeno para transformar essa realidade... quem sabe então, aprender com os índios?!

 Apresentação do Coral Mbyá-Guarani da Aldeia do Cantagalo.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Sobre a produção de "Diários"

Um dos processos mais importantes para o pesquisador, ao realizar uma pesquisa, ao meu ver, é a produção de Diários. No diário de pesquisa anotamos tudo aquilo que consideramos relevante, mesmo que não utilizemos essas informações posteriormente. Porém, esse processo faz parte de uma construção essencial para o crescimento e amadurecimento do pesquisador, além de auxiliar na retomada de questões e no foco da questão...
Eu produzo diários desde sempre. Diários que, podemos dizer.. quase que filosóficos, sobre minhas inquietações constantes e efêmeras. Durante o período em que fiz minha graduação em Artes, utilizei diários de pesquisa, diários de bordo.
Papéis e mais papéis, porém papéis que falam muito de mim e daquilo que acredito.
Me recordo de escutar inúmeras vezes a Teresa (minha professora, orientadora e hoje grande amiga) dizendo "Me desfaço de roupas e objetos, mas de meus papéis, cadernos, agendas, diários e qualquer tipo de anotações, jamais!"
Nos papéis estão guardados tudo aquilo que o pensamento e a memória já não comportam mais...
Fragmentos...
 - Fotografia do meu atual diário de pesquisa -

Aproveito para deixar uma reflexão do Rubem Alves (para variar.. hehe) sobre essa questão...
Boa viagem!
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"Os livros que mais me falam são os diários. Diários são registros de experiências comuns acontecidas na simplicidade do cotidiano, experiências que provavelmente nunca se transformariam em livros. Não foram registradas para serem dadas ao público. Quem as registrou, as registrou para si mesmo - como se desejasse capturar um momento efêmero que, se não fosse registrado, se perderia em meio à avalanche de banalidades que nos enrola e nos leva de roldão. Esse é o caso do Cadernos da Juventude, de Camus, um dos livros que mais amo, e que leio e releio sem nunca me cansar. Um “diário” é uma tentativa de preservar para a eternidade o que não passou de um momento. Álbuns de retratos da intimidade. Pois eu fiz um “Diário”: pensamentos breves que pensei ao correr da vida e dos quais não me esqueci. Pensamentos são como pássaros que vêm quando querem e pousam em nosso ombro. Não, eles não vêm quando os chamamos. Ele vêm quando desejam vir. E se não os registramos eles voam, para nunca mais. Isso acontece com todo mundo. Só que as pessoas, achando que a literatura se faz com pássaros grandes e extraordinários, tucanos e pavões, não ligam para as curruiras e tico-ticos... Mas é precisamente com curruiras e tico-ticos que a vida é feita. Assim, em cada página há também um espaço em branco para que o leitor registre também os seus seus tico-ticos e curruiras... Pensando num título escolhi O Poema nosso de cada dia..., em contraponto ao “pão nosso de cada dia” da oração de Jesus. Porque não vivemos só de pão; vivemos também de poemas. Quem se alimenta só de pão engorda e fica pesado. Quem se alimenta de poemas fica leve e ganha asas... O pré-lançamento do meu “Diário” vai ser parte da celebração dos 20 anos de existência do Estúdio Paulo Branco. Tinha de ser... Pois foi o Paulo Branco, artista maravilhoso, que colocou desenhos em cada página do “Diário”. Assim, eu com a palavra, o Paulo Branco com os desenhos, e a Papirus com a realização editorial, estamos todos juntos. Pré-lançamento hoje, dia 08 de dezembro, domingo, às 16 horas, rua Orlando Carpino, 149, Castelo, fone 3241.3823. Lançamento amanhã, às 19 horas, na FNAC, shopping center D. Pedro." (Rubem Alves)

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Reflexão sobre diários feita pela Lidi em seu blog: Desenhar é preciso: Produção de diários e sketchbooks

Reflexão sobre diários (neste caso, sobre os diários da Susan Sontag!) feita pela Sheila em seu blog: Antes que eu me esqueça: Diários

Exercício de observação - Diário etnográfico...


Por oposição aos gerontologistas, que analisam a velhice como um processo biológico, eu estou interessado na velhice como um acontecimento estético. A velhice tem a sua beleza, que é a beleza do crepúsculo. A juventude eterna, que é o padrão estético dominante em nossa sociedade, pertence à estética das manhãs. As manhãs têm uma beleza única, que lhes é própria. Mas o crepúsculo tem um outro tipo de beleza, totalmente diferente da beleza das manhãs. A beleza do crepúsculo é tranquila, silenciosa – talvez solitária. No crepúsculo tomamos consciência do tempo. Nas manhãs o céu é como um mar azul, imóvel. No crepúsculos as cores se põem em movimento: o azul vira verde, o verde vira amarelo, a amarelo vira abóbora, o abóbora vira vermelho, o vermelho vira roxo – tudo rapidamente. Ao sentir a passagem do tempo nós apercebemos que é preciso viver o momento intensamente. Tempus fugit – o tempo foge – portanto, carpe diem – colha o dia. No crepúsculo sabemos que a noite está chegando. Na velhice sabemos que a morte está chegando. E isso nos torna mais sábios e nos faz degustar cada momento como uma alegria única. Quem sabe que está vivendo a despedida olha para a vida com olhos mais ternos...
Rubem Alves
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Esta atividade foi desenvolvida no primeiro semestre de 2010, como exercício de obervação para a disciplina de Antropologia (do curso que faço, Arqueologia - Bacharelado). Como me interesso pelos processos de envelhecimento, resolvi fazer no asilo de pobres da cidade de Rio Grande... e resolvi então compartilhar esta experiência - que foi bastante intensa e determinante para a minha trajetória enquanto pesquisadora.
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10 de maio de 2010
Segunda-feira, três horas da tarde, chove bastante. Entrei no asilo pela porta lateral, situada na Rua João Alfredo. Conversei com um senhor que estava na portaria e este me encaminhou à secretaria. Ao me dirigir até lá, fui percebendo o ambiente: um prédio antigo, escuro e com muitos velhinhos caminhando pelos corredores, sentados nos sofás. Muitas portas abertas e dentro das peças umas cinco camas aproximadamente. Cheguei à secretária e aguardei uns minutos para ser atendida. Conversei com uma moça, funcionária do asilo, sobre a possibilidade de realizar o trabalho, e falei sobre o interesse em conversar com um responsável pelo lugar e também entrar com contato com os idosos, moradores do local. A funcionária me disse que é difícil encontrar o responsável pelo local, mas que anotaria meu telefone e me ligaria assim que falasse com ele, mas que, com os velhos, eu poderia conversar, nos horários entre 15h30 e 17h30. Sendo assim, parti rumo aos corredores à procura de alguém para conversar... Observei que em cada quarto, as aberturas das portas são grandes e que, na parte superior, todas têm fixado uma placa antiga que consta um número e um ‘nome’ (por exemplo: “5. Theodósio da Silva”). Pelos corredores, alguns sofás, próximo à secretaria, uma sala de ‘TV’. Segui caminhando e parei em uma porta à minha esquerda, onde encontrava-se uma velha senhora sentadinha, lendo um folder ou um pequeno livrinho. Perguntei a ela se poderia conversar e ela, muito simpática, disse que sim, me convidou a entrar e sentar. Me apresentei e logo iniciamos a conversa. Dona Zeni, é natural de Pelotas e reside no asilo à cerca de um ano. Antes de se mudar para o asilo, morou durante 7 anos na Vila da Quinta (bairro de Rio Grande) e relatou com tristeza que sente muita falta do lugar e dos amigos que lá vivem. Ao ser questionada quanto à gostar ou não de viver onde está atualmente, ela respondeu com simplicidade e um pouco de tristeza: “Gosto daqui, gosto das pessoas, me dou bem com todo mundo. Quando acho que não vou me dar bem, eu me afasto da pessoa.” Esta senhora, que no seu olhar transparecia um misto de tristeza e felicidade, foi levada por seu irmão para residir no asilo. De família muito católica, sente falta de ir à missa e às outras atividades da Igreja Católica, e afirma que a forma que encontrou de manter mais próxima ‘de Deus’ na sua atual condição, é ler a Bíblia todos os dias. Há um padre que ‘às vezes’ vai até o salão do local e realiza uma missa, mas o inconveniente, segundo Dona Zeni, é que o horário da missa coincide com o horário do almoço, desta forma se ela vai à missa, perde uma refeição importante (que não é servida depois). O asilo oferece as principais refeições, café da manhã, almoço, café da tarde e janta, mas é em horários específicos e os moradores precisam estar disponíveis de acordo com a organização. Quanto à sua rotina, o tempo é vago e eles tentam preenchê-lo com leituras, conversas e contato com outros moradores. Tem uma sala de TV, onde todos tem acesso livre. Podem ir até o pátio, mas não passar dos portões desacompanhados. Para passear pela cidade é necessário que estejam acompanhados de um familiar ou alguém conhecido. Dona Zeni me contou um pouco sobre a sua vida, falando muito de um tempo em que foi funcionária de um asilo em Pelotas. Senti que ela aceita a condiçlão de estar lá, mas não se sente feliz... Ao me despedir, agradeci a ela por sua dedicação e ela me abraçou muito feliz, dizendo: “Aparece para conversar comigo mais vezes.”
Quando ia saindo, apareceu uma senhora que divide o quarto com Dona Zenir me pedindo para visitar o quarto ao lado, pois lá tinha ‘uma menina’ que queria conversar comigo. Me encaminhou até lá e me deparei com uma situação diferente da anterior. No quarto tinham mais senhoras, um lugar um pouco bagunçado e mais escuro. Numa cadeira de rodas, havia uma senhora com bastante idade que me olhou e disse: “Senta aqui (apontando para a cama) que eu quero saber da tua vida!” Muito simpática, cheia de histórias para contar, Dona Victoria é natural de Santa Maria e descendente de Árabes. Ela relatou que seu pai era árabe e que com os pais conversava um pouco na língua. Disse que hoje já não se lembra de nada porque não tem com quem conversar no idioma. Ela lê bastante para, segundo ela, manter a cabeça constantemente funcionando. Inicialmente ela falava com bastante empolgação sobre o asilo, falando das festas que elas fazem, que as amigas são muito bacanas, os funcionários do lugar e tudo o mais. Em alguns momentos era difícil compreender o que ela dizia, pois falava baixinho e tinham outras pessoas que falavam mais alto no quarto. Então ela se emocionava dizendo: “Papai não deixou eu estudar. Depois me casei e meu marido não me deixou trabalhar. Gostaria que tivesse sido diferente, sempre me interessei pelos estudos da natureza. Gostaria de entender como funciona a terra, como ela dá os frutos, coloridos, de diferentes formatos. É tão lindo de ver. Se eu tivesse estudado e tido uma profissão, eu não estaria aqui hoje.” E ela dizia repetidas vezes a seguinte frase: “A terra nos cria, a terra nos come”. Dona Victoria já vive lá há mais tempo que Dona Zeni, porém ela não soube me precisar uma data. Viúva há alguns anos, foi levada para o asilo por sua filha que reside no Cassino. A filha a visita poucas vezes, pois, segundo a senhora, ‘tem pouco tempo, trabalha demais.’ O filho, mora na Bahia, é casado e tem duas filhas, os quais ela não tem contato constante devido a distância. Ela aguarda um telefonema do filho... e pede a Deus que o rapaz mande notícias. Ela tem muita fé e também é católica. Me disse inúmeras vezes para me agarrar a Deus e nele confiar. Além da leitura, ela disse que constantemente se faz perguntas sobre tudo, para ativar a memória. Dona Victória não sai nem para passear, pois tem problemas nas pernas. Depois de falar muito sobre ela, disse que queria saber da minha vida. Perguntou se eu era casada e se tinha filhos. Recomendou-me ‘encomendar’ uma ‘guriazinha’, pois disse que uma guriazinha é muito bom! Perguntou o que era “Arqueologia e Antropologia” e gostou muito da minha explicação. E sua última pergunta, que me deixou um pouco aflita, foi esta: “Como é a vida lá fora? Como são as pessoas?”
Diante desta pergunta me senti um pouco atônita e confesso que de imediato não soube como responder. Inúmeras sensações me causaram um certo desconforto, tristeza, frustração... Eu pensava: “Estou aqui, realizando um trabalho, para uma disciplina do curso que estou estudando. Ou seja, este momento é uma parcela pequena da minha vida, de tudo o que faço. Enquanto que para ela, aquele momento era muito importante, um contato com o mundo externo. Aquele momento era a vida dela em sua totalidade. Seu mundo se resumia aquele lugar.” Logo, pensei eu a forma de responder traçando um paralelo de como era quando ela estava lá fora. Hoje as pessoas não tem tempo para nada, correm freneticamente para todos os lados e apontam para todas as direções. É difícil encontrar famílias ou pessoas que mantêm uma vida equilibrada, com tempo para trabalhar, para se dedicar à família e ter momentos de lazer tranqüilamente.
Por fim, tive que interromper a conversa, pois aproximava-se das 17h30 e o horário de visita chegava ao fim. Como Dona Zeni, Dona Victória me pediu para voltar. Abracei-a e disse que retornaria com algum livro ou revista, levando informações sobre ‘o mundo’ para ela. Me agradeceu muito e então parti.
Sai pela porta lateral do asilo (a mesma em que entrei). Já não chovia tanto, mas ventava e estava frio. Eu só pensava na condição daquelas pessoas, dependendo de outros para que sua felicidade fosse um pouco maior.
Quanto ao prédio, ainda não obtive informações pois não recebi o contato do vice-presidente – segundo a funcionária que me recebeu, ele é a pessoa que poderia me autorizar a fazer uma investigação maior e me fornecer as informações sobre o funcionamento do lugar e me indicar pessoas para conversar. Desta forma, tive um primeiro contato superficial com o lugar, mas um contato profundo com as pessoas com quem estive. Acredito que pela ‘solidão’ em que se encontram, mesmo em um lugar bastante povoado, cada contato que estabelecem com alguém disposto a lhes ouvir, é muito intenso. Neste momento, é difícil manter uma postura de oposição aos sentimentos, é difícil não se envolver com os pesquisados. Portanto, fiz algumas breves anotações no lugar mesmo, mas esperei para refletir e escrever sobre esta experiência um dia depois, para não ser fortemente influenciada pelos sentimentos que me encobriam ao sair do lugar. Por fim, deixo uma pequena reflexão escrita por Paulo Coelho sobre a velhice...

Ana Cintra conta que seu filho pequeno,
com a curiosidade de quem ouviu uma nova palavra,
mas ainda não entendeu seu significado, perguntou-lhe:
"Mamãe, o que é velhice? "

Na fração de segundo antes da resposta,
Ana fez uma verdadeira viagem ao passado.
Lembrou-se dos momentos de luta, das dificuldades, das decepções.
Sentiu todo o peso da idade e da responsabilidade em seus ombros.
Tornou a olhar para o filho, que, sorrindo, aguardava uma resposta.

"Olhe para o meu rosto, filho" , disse ela.
"Isto é a velhice".

E imaginou o garoto vendo as rugas e a tristeza em seus olhos.
Qual não foi sua surpresa quando,
depois de alguns instantes, o menino respondeu:
"Mamãe! Como a velhice é bonita!"
Paulo Coelho

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Escrevendo a vida

O quê estes filmes têm em comum?

O quê estes filmes têm em comum?
"Le fabuleux destin d'Amélie Poulain", "Uma vida iluminada" e "Coisas insignificantes".