Sobre este espaço

Este é um espaço destinado à reflexões acerca da memória, do tempo e de histórias.. Histórias de vida, histórias inventadas, histórias... Um espaço onde a imaginação possa fluir, viajar. Um espaço também para escrever sobre minhas reflexões referentes aos meus estudos sobre arqueologia e antropologia... Antes de mais nada, uma espécie de Diário daquilo que me impulsiona, um lugar para organizar (ou tentar) meus pensamentos.. antes que eles voem por aí.

Boa exploração!

Roberta Cadaval

quinta-feira, 25 de março de 2010

Um pouco de 'Etnocentrismo'

Etnocentrismo é uma visão de mundo onde o nosso próprio 
grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são 
pensados e sentidos  através dos nossos valores, nossos 
modelos, nossas definições do que é a existência. 
(ROCHA, 1984. p. 7)



Para a aula de Antropologia desta semana tivemos de ler um livrinho de bolso chamado "O que é etnocentrismo", de Everardo Rocha. Muito boa a leitura (como a maioria destes da coleção primeiros passos), para quem se interessa sobre o assunto, recomendo. No livro, o autor conta uma historinha que é bastante conhecida e que eu gostaria de compartilhar.. 

"Ao receber a missão de ir pregar junto aos selvagens um pastor se preparou durante dias para vir ao Brasil e iniciar no Xingu seu trabalho de evangelização e catequese. Muito generoso, comprou para os selvagens contas, espelhos, pentes, etc; modesto, comprou para si próprio apenas um moderníssimo relógio digital capaz de acender luzes, alarmes, fazer contas, marcar segundos, cronometrar e até dizer a hora sempre absolutamente certa, infalível. Ao chegar, venceu as  burocracias inevitáveis e, após alguns meses, encontrava-se em meio às sociedades tribais do Xingu distribuindo seus presentes e sua doutrinação. Tempos depois, fez-se amigo de um índio muito jovem que o acompanhava a todos os lugares de sua pregação e mostrava-se admirado de muitas coisas, especialmente, do barulhento, colorido e estranho objeto que o pastor trazia no pulso e consultava frequentemente. Um dia, por fim, vencido por insistentes pedidos, o pastor perdeu seu relógio dando-o, meio sem jeito e contragosto, ao jovem índio.
A surpresa maior estava, porém, por vir. Dias depois, o índio chamou-o apressadamente para mostrar-lhe, muito feliz, seu trabalho. Apontando seguidamente o galho superior de uma árvore altíssima nas cercanias da aldeia, o índio fez o pastor divisar, não sem dificuldade, um belo ornamento de penas e contas multicolores tendo no centro o relógio. O índio queria que o pastor compartilhasse a alegria da beleza transmitida por aquele novo e interessante objeto. Quase indistinguível em meio às penas e contas e, ainda por cima, pendurado a vários metros de altura, o relógio, agora mínimo e sem nenhuma função, contemplava o sorriso inevitavelmente amarelo no rosto do pastor. Fora-se o relógio.
Passados mais alguns meses o pastor também se foi de volta para a casa. Sua tarefa seguinte era entregar aos superiores seus relatórios  e, naquela manhã, dar uma última revisada na comunicação que iria faezr em seguida aos seus colegas em congresso sobre evangelização. Seu tema: 'A catequese e os selvagens'. Levantou-se, seu uma olhada no relógio novo, quinze para as dez. Era hora de ir. Como que buscando uma inspiração de última hora examinou detalhadamente as paredes do seu escritório. Nelas, arcos, flechas, tacapes, bordunas, cocares e até uma flauta formavam uma bela decoração. Rústica e sóbria  ao mesmo tempo, trazia-lhe estranhas lembranças. Com o pé na porta ainda pensou e sorriu para si mesmo. Engraçado o que aquele índio foi fazer com o meu relógio."

E o índio, se visse a decoração da parede do escritório do pastor, não pensaria a mesma coisa?? 
Os dois tiveram a mesma atitude em relação aos objetos da cultura um do outro... 
Cada um "traduziu" nos termos de sua própria cultura o significado dos objetos cujo sentido original foi forjado na cultura do "outro". (ROCHA, 1984. p. 13)


Depois disso,  na aula de ontem, fizemos a leitura de um texto interessantíssimo que fala da cultura dos "NACIREMA" (ô povo incompreensivel este!).. Como você se sentiria sendo interpretado por alguém que possui uma "visão de fora" da sua cultura???? É mais ou menos sobre isto que trata a próxima reflexão.. mas é longo... este ficará para a próxima!


Bibliografia:
ROCHA, E. O que é etnocentrismo. São Paulo: Editora brasiliense, 1984.

3 comentários:

Lidiane disse...

Que lindo Roberta, parabéns pela reflexão e obrigada por compartilhar este belo texto! Gosto muito da coleção primeiros passos pois acredito que para aprofundar um assunto, é necessário começar pela "base". Também gostei da frase do Marx, usada com muita propriedade, sem aqueles "marxismos de boutique" que vemos por aí... Abraços, continuarei acompanhando!

Anita disse...

Olá Roberta, boa tarde! tudo bem?
Olha, gostei muito de seu texto e comentários sobre o etnocentrismo; gostaria de saber se vc tem outros autores que tratem desse tema também, pois estou concluindo meu curso de pedagogia e esse é o tema do meu TCC.
Obrigada viu?
E mais uma vez, Parabéns.

Roberta Cadaval disse...

olá Anita! Que bacana que abordas esse tema na pedagogia, acho extremamente relevante! Na verdade, o etnocentrismo é um tema bastante abordado nas discussões antropológicas de uma forma geral, pois é necessário despirmos de nossos conceitos (ou 'pré-conceitos) para tentarmos compreender o "outro", em toda a sua complexidade. Acho que alguns autores como Roberto DaMatta (especialmente o livro "relativizando" e o texto "você tem cultura"), François Laplantine (com o livro "Aprender Antropologia") e Glifford Geertz (no que ele se refere ao estudo das culturas) podem contribuir com o teu trabalho.. apesar de não saber exatamente do que se trata a tua pesquisa, estes autores discutem algumas questões que envolvem 'etnocentrismo' e/ou 'alteridade', dois conceitos que acredito serem diretamente relacionados!!! Bom, Aacho que era isso. Desculpa a demora da resposta.. é que andava meio atrapalhada nos últimos dias! Espero ter contribuido de alguma forma! Se precisar de alguma coisa, pode me escrever! Um abraço e bom trabalho!
Roberta Cadaval

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"Le fabuleux destin d'Amélie Poulain", "Uma vida iluminada" e "Coisas insignificantes".