Sobre este espaço

Este é um espaço destinado à reflexões acerca da memória, do tempo e de histórias.. Histórias de vida, histórias inventadas, histórias... Um espaço onde a imaginação possa fluir, viajar. Um espaço também para escrever sobre minhas reflexões referentes aos meus estudos sobre arqueologia e antropologia... Antes de mais nada, uma espécie de Diário daquilo que me impulsiona, um lugar para organizar (ou tentar) meus pensamentos.. antes que eles voem por aí.

Boa exploração!

Roberta Cadaval

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Aqui jaz um espírito de amor




As pessoas costumam frequentar cemitérios para "visitarem" ou prestarem homenagens à seus entes queridos que já partiram. Os cemitérios tem sua beleza, contam parte da história de uma cidade ou vilarejo. Mas são tristes. São frios. Desde criança eu frequento cemitérios. E em certo momento da vida, quando cursava a faculdade de arqueologia, cheguei a desenvolver um trabalho referente a um. Porém, estes rituais de passagem que acontecem dentro destes lugares, sempre me causaram dor. 

A morte, para mim, não existe. Não essa morte com ponto final, a qual muitos pregam na nossa sociedade. A vida existe para além deste lugar... e disso, eu não tenho dúvidas. Entender e sentir o que está entre a materialidade e a espiritualidade tem sido o norte e a força da minha vida, nos últimos anos. Eu tenho dito que a minha religião é a natureza. É onde encontro as respostas, sintonias e conexões das coisas da vida. É onde surgem as melhores perguntas. É onde tenho me encontrado. É onde há vida, mesmo após a morte. É onde reside a cura e onde Deus habita. Não aquele Deus de barba e cabelo branco. Mas uma energia suprema que habita o todo e está dentro de cada um de nós. 

Daqui a cinco meses, farão cinco anos que meu pai fez sua passagem. Desde então, ele tem me ensinado muito. Talvez mais do que em vida. O que ele deixou para mim, não pode ser materialmente explicado. No ritual de despedida que fizemos não houve aquela sensação claustrofóbica do engavetamento do corpo. O fim do ciclo material, para ele, se encerrou em um lugar cheio de vida, no mesmo lugar em que ele chegou a este mundo. Na árvore em que ele brincou durante a sua infância, a mesma que fez sombra para muitos chimarrões compartilhados com a família anos mais tarde, foi onde ficou a sua materialidade. Memórias, sonhos e nostalgias daquela imensa e linda Figueira, foram levadas em seu coração para além desse lugar. E é lá onde presto minha homenagem e faço aquelas simbólicas visitas a este ser que tanto amo. 

Ontem eu desejei abraçar o afeto dessas memórias. Era a saudade representada nesta árvore cheia de histórias. Foi tão bonito. A alegria tomou conta do meu ser. Ao chegar lá pedi licença ao Seu Adenir, caseiro do lugar há mais de 20 anos. Carinhosamente ele nos recebeu. Ao lado daquela árvore avistei uma linda cachorrinha amarela, sentadinha, devolvendo-me o olhar. Naquele instante recordei o amor que meu pai tinha pelos animais e senti que, se lá ele ainda estivesse, aquela companhia o agraciava. O céu estava lindo e as cores vibravam. Lembrei do dia em que nossa família despediu-se dele. Era um dia nublado, mas mágico. O fato de deixá-lo em liberdade afagava o meu coração. Evidentemente, uma liberdade física... e um tanto ilusória. Mas uma liberdade que transmutava aquela energia impressa no significado da morte. 

Abracei com todo o meu coração aquela árvore que ficava emoldurada nas paredes do quarto do meu pai, ainda em vida. Agradeci por aquele momento e mandei para ele os sentimentos mais nobres que pude sentir. Cheia de figos, essa figueira me acolheu em seus braços sutis. Eu não vivi essas memórias ao lado de meu pai. Não faço parte dessa história, assim como meus familiares. Mas eu cresci ouvindo tantas histórias de lá, que me sinto parte daquele lugar. Pude ver a infância de meu pai diante de mim. Pude ver os encontros e desencontros de meus tios,irmão e primos. Mesmo sem ter estado lá. 

De qualquer forma, visitar uma figueira é muito mais bonito do que visitar um cemitério. Ali, a morte se mistura com a vida, que pulsa sem parar. Ali é a certeza de que ele ainda vive. Materialmente, dentro das minhas memórias e também nas memórias que não vivi. Espiritualmente, num lugar ainda maior, o qual não posso mensurar... ainda. E o registro foi feito por aquela pessoa a qual ele me aconselhava para que eu jamais me afastasse, "nunca te afasta da Michele, ela é tua amiga mesmo". Ele referia-se à Cibele, amiga que ele tinha grande carinho, mas nunca deixou de confundir o seu nome. Ele via a essência e é isso o que importa. Quando ele partiu, estávamos indo juntas visitá-lo. Ontem esta visita se fez, de fato. 

Ontem eu senti que seu espírito está liberto. Esse sentimento encheu meu coração de alegria e satisfação. A saudade doeu um bocado, mas o amor e o aprendizado acolheram esta saudade. 

Gratidão ao universo, por me proporcionar estes encontros. 
Gratidão à Figueira, que me inspira e me afaga. 
Gratidão ao Seu Adenir, que nos recebeu de braços abertos. 
Gratidão à minha mana, que registrou esse momento. 
Gratidão ao meu amor, pelo abraço que se estendeu para além da Figueira. 
Gratidão à minha mãe, pela conexão com o meu pai que resultou no sentimento de libertá-lo naquele lugar. 

Gratidão à vida e a morte! 

Ahoo!

1 comentários:

Angelita Ribeiro disse...

Lindo este encontro querida!

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O quê estes filmes têm em comum?

O quê estes filmes têm em comum?
"Le fabuleux destin d'Amélie Poulain", "Uma vida iluminada" e "Coisas insignificantes".